Polícia do Rio deve fazer busca no morro do Sumaré

Segundo o delegado, o primeiro inquérito já foi concluído, e os policiais Vinicius Lima Vieira e Fábio Magalhães Ferreira foram indiciados por homicídio qualificado

iG Minas Gerais | DA REDAÇÃO |

A Polícia Civil, que investiga a morte de um adolescente, no dia 11 de junho, vai fazer buscas no alto do morro do Sumaré, zona norte do Rio, para verificar se há outros corpos de vítimas ou indícios de crimes correlacionados. A morte do rapaz teria ocorrido após ele ser perseguido por PMs. Um outro jovem foi baleado e sobreviveu, e outro foi liberado.

O delegado Rivaldo Barbosa, titular da DH (Delegacia de Homicídios), disse que "o objetivo é promover uma busca mais ampla na região para ver se existem outros corpos ou vestígios de assassinatos no entorno." Ele acrescentou que não há, ainda, uma data estipulada para o procedimento, que pode ser feito nesta ou na próxima semana.

Barbosa falou que foi aberto um segundo inquérito do "caso Sumaré", agora para investigar onde está o terceiro jovem levado para o morro, e liberado pelos PMs. Se encontrado, poderá dar seu testemunho a respeito do ocorrido. Até o momento, não se sabe nome, idade ou endereço do rapaz, apenas que ele afirmava trabalhar na região central.

Segundo o delegado, o primeiro inquérito já foi concluído, e os policiais Vinicius Lima Vieira e Fábio Magalhães Ferreira foram indiciados por homicídio qualificado, uma tentativa de homicídio e ocultação de cadáver. A reportagem não conseguiu falar com a defesa dos PMs.

Imagens

Um vídeo divulgado na noite de domingo (20) mostra a ação dos dois PMs que apreenderam os três jovens. As imagens flagram os rapazes sendo levados para o alto do morro e também quando um deles é liberado. Ao descer, os PMs encontram novamente o rapaz e dão carona para ele descer, liberando-o próximo aos Arcos da Lapa.

Durante a descida, os policiais fazem severas ameaças ao jovem, intimidando-o a não relatar o acontecido a quem quer que seja.

Barbosa falou que a coordenação da PM não ficou inerte diante do acontecido no dia 11. O carro da corporação onde os garotos foram levados saiu da rota e os PMs foram chamados algumas vezes pelo sistema de comunicação. O fato está registrado às 10h44 daquela data, de acordo com as imagens da câmera do carro.

"Obviamente, a coordenação da PM não sabia o motivo da alteração na rota daqueles policiais, mas ao constatarem a diferença, chamou a atenção dos deles", declarou, acrescentando que a coordenação da PM tem colaborado com as investigações desde que o fato veio à tona.

O caso

Quando foi apreendido por dois policiais militares em uma rua do centro do Rio, na manhã de 11 de junho, o adolescente M., 15, foi colocado em um carro da corporação e levado para um matagal no alto morro do Sumaré, próximo à casa do cardeal d. Orani Tempesta, arcebispo da cidade.

Segundo relatos do rapaz, ele e Mateus Alves dos Santos, 14, que também havia sido apreendido, foram baleados quatro vezes pelos policiais. M. foi o primeiro a ser ferido, levando um tiro de fuzil pelas costas e outro, de pistola, na perna direita.

"Ele [PM] me chutou, mas não me mexi, fingi de morto", relatou o jovem à reportagem na sexta (20). "Depois, puxaram o outro garoto de dentro do carro. Quando me viu, se desesperou e começou a gritar, mas tomou dois tiros e caiu em cima de mim, morto", disse. Os dois se conheciam apenas de vista.

Assim que os policiais se afastaram, M. saiu de baixo do corpo de Mateus, levantou-se e amarrou um casaco na perna, atravessada pela bala. O tiro de fuzil também cruzou seu corpo, deixando um furo pelas costas.

O adolescente saiu de dentro da mata e começou a descer a ladeira do Sumaré; no caminho, procurou auxílio em três estabelecimentos, mas não o ajudaram. "Disseram que não poderia ficar ali, porque a polícia voltaria." Os comerciantes também deram a entender que a região é ponto de desova (ocultação de cadáveres).

Em busca de socorro, M. caminhou até o morro do Turano, na zona norte. Um menino o levou a uma igreja, onde limparam seus ferimentos e ligaram para sua família. Seu pai o buscou no pé do morro e o levou ao hospital municipal Souza Aguiar.

De volta à sua casa, utilizou o Facebook para informar a outros garotos da comunidade o que havia acontecido, e recebeu a informação de que um adolescente da Maré estava sumido. Um dos internautas entrou em contato com uma tia de Mateus, Aline dos Santos, que foi à casa de M. e ouviu o relato do sobrevivente no sábado (14).

Acompanhada de seu marido e de mais um tio do jovem assassinado, procurou a Delegacia de Homicídios na segunda-feira (16). Encontraram o corpo de Mateus no Sumaré no mesmo dia.

O pai do garoto o identificou no local. "Mesmo que ele tivesse feito algo errado, deveria ter sido levado à DPCA [Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente]", disse o pai, Tyago Virgínio dos Santos, 33, auxiliar de obras.

M., que parou de estudar ao completar a sexta série no ano passado, disse à reportagem que estava "dando um role", quando foi apreendido. Contou que ele e Mateus estavam tranquilos até chegar ao Sumaré. "Ali vimos que iam fazer maldade", disse.

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