Desperdício de espaço público

Além da desvalorização, áreas sob viadutos se tornam depósito de lixo e moradia de sem-teto

iG Minas Gerais | Johnatan Castro |

Vizinhos. Projeto do viaduto Batalha dos Guararapes previa estrutura bem próxima de residencial com dezenas de apartamentos
LEO FONTES / O TEMPO
Vizinhos. Projeto do viaduto Batalha dos Guararapes previa estrutura bem próxima de residencial com dezenas de apartamentos

Vizinho do viaduto Itamar Franco, construído sobre a avenida Tereza Cristina, no bairro Carlos Prates, na região Noroeste da capital, o administrador Edson Santos, 51, conta que, logo após a inauguração, a parte de baixo da estrutura passou a ser ocupada por moradores de rua e a armazenar muito lixo e sujeira. Esse é um dos problemas apontados por arquitetos e urbanistas como consequência da construção de viadutos e vias elevadas nas grandes cidades do mundo.

Um dos maiores problemas é a degradação do espaço ao redor dos equipamentos. Sem planejamento para serem utilizadas de maneira correta e funcional, as partes de baixo desses viadutos acabam tomadas por lixo e ocupadas pela população de rua e por moradias irregulares. “As áreas embaixo dos viadutos acabam morrendo. E a mesma coisa acontece com as trincheiras. A gente tem que pensar isso melhor. Se essas obras fossem pensadas mais ecologicamente, elas gerariam espaço para parques, lazer, uso de skate e descanso”, afirma o arquiteto e urbanista mineiro Fernando Lara, também professor da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. A opinião é compartilhada pela diretora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP, na sigla em inglês), Clarisse Linke. “Ele (o viaduto) não resolve o problema do carro e propicia uma degradação dos espaços urbanos. É um investimento grande e que muito rapidamente gera uma degradação do seu entorno. Ele corta a área (onde foi instalado), tem uma concentração de poluição e acaba por expulsar as pessoas daquela região”. Projeto. Apesar dos problemas, Edson Santos acredita que os projetos dessas edificações podem ser melhorados. “Por que não fizeram um projeto de paisagismo, de arborização? Tudo ali (no viaduto Itamar Franco) é só concreto”, diz. Já o engenheiro Lincon Dias Oliveira vai além e afirma que os viadutos podem ser integrados ao ambiente urbano e se tornarem até mesmo pontos turísticos. “A questão da arquitetura acaba ficando em segundo plano nos países menos desenvolvidos. Nos países mais desenvolvidos, eles valorizam o ambiente, são bonitos e se tornam pontos turísticos”, considera.

Saiba mais

Origem. Nos anos 60 e 70, cidades brasileiras importaram o exemplo norte-americano de construir viadutos e vias expressas, que, na prática, funcionavam como rodovias urbanas. O objetivo era reduzir os congestionamentos. Efeitos. O estudo “A Lei Fundamental do Congestionamento Rodoviário: Evidências de Cidades Norte-Americanas”, de 2011, apontou que, apesar da expectativa de ganho de tempo, o fomento das rodovias urbanas não resolveu o problema do tráfego. Apesar de a expansão das vias poder trazer alívio de tráfego nos primeiros anos, o mais provável é que tenha o efeito oposto. Ameaça. De acordo com arquitetos, a construção de viadutos e elevados junto a outros edifícios também traz concentração da poluição atmosférica nas áreas mais densamente ocupadas. Exemplos brasileiros. No Brasil, os exemplos de viadutos cujos impactos estão sendo discutidos são o elevado Costa e Silva, conhecido como Minhocão, em São Paulo, e o elevado da Perimetral, no Rio de Janeiro. Esse último começou a ser demolido no ano passado para dar espaço a uma área de convivência para os Jogos Olímpicos de 2016. Já o viaduto paulista é constantemente alvo de debates, mas a demolição ainda não vingou.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave