Inflação é mais forte para 13 milhões que vivem nos morros

Parcela da classe C teve crédito farto, comprou muito e agora não está conseguindo honrar dívidas

iG Minas Gerais | Queila Ariadne |

Escolha. Com multiprestações de computador, celular e TV, Edivânio Fernandes decidiu frear todos os gastos e adiou o sonho da moto
LEO FONTES / O TEMPO
Escolha. Com multiprestações de computador, celular e TV, Edivânio Fernandes decidiu frear todos os gastos e adiou o sonho da moto

Futebol, novela e política sempre estarão presentes em um salão de beleza. No Branca de Neve, no morro do Papagaio, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, pelo menos mais dois assuntos já se tornaram frequentes: inflação e juros. O dono, Alexandre Souza, está acostumado a ouvir os casos de quem se endividou, mas também tem sua própria história para contar. Com crédito facilitado, financiou televisão e eletrodomésticos. Conseguiu 100% de financiamento de um carro em 60 meses e, 36 parcelas depois, não conseguiu mais pagar os juros. Resultado: o carro foi tomado pela Justiça.  

Souza está entre os 13 milhões de moradores dos morros do Brasil que, juntos, têm um potencial de consumo de R$ 63 bilhões, segundo o instituto de pesquisas Data Favela. Mas, com tantas prestações e com a inflação sem sinais de trégua, não estão mais dispostos a gastar como antes e já começam a mudar os hábitos de consumo.

“O que temos visto é que as pessoas estão segurando mais os gastos, e isso está totalmente atrelado à alta da inflação. A população de baixa renda é a mais afetada porque o aumento dos alimentos pesa mais. E não há uma perspectiva de melhora na renda, como víamos antes. Isso faz pensar mais antes de comprar”, afirma o fundador do Data Favela, Renato Meirelles.

Souza sabe exatamente o que é mudar hábitos. “Tive que cortar bastante coisa. Parei a reforma da minha casa, e a do meu salão ficou para depois”, afirma. Ele conta que as prestações se misturaram e não conseguiu mais pagar o carro, que era R$ 734 por mês. “Procurei um advogado para me ajudar a negociar uma redução nos juros, ele me aconselhou a não pagar mais, e eu perdi o carro”, relata. “Agora, eu perdi meu nome limpo e não tenho mais crédito”, afirma ele.

O microempresário Edivânio Fernandes também teve que fazer escolhas. No cartão de crédito, ele está na quinta das 12 prestações da TV, na segunda das 12 parcelas do computador e na última da décima prestação do celular. “Eu financiei um carro e fiz consórcio de uma moto. Para não ficar muito apertado, em vez de tirar a moto, quitei o carro com o dinheiro do consórcio”, conta.

O coordenador do curso de gestão de negócios em comércio da Faculdade IBS da Fundação Getúlio Vargas, Fernando Roberto Marchesini, afirma que, pelo menos nos próximos 12 meses, essas pessoas vão parar de comprar. “Elas não tinham acesso a crédito para comprar produtos como TV de LCD, endividaram-se e vão frear o consumo, mas o governo fará novas políticas para reduzir o preço e, dentro de um ou dois anos, eles voltarão a comprar”, diz.

Inflação IPCA. A inflação do primeiro semestre deste ano acumula alta de 3,75%. No ano passado, no mesmo período, era 3,15%. E, em 2012, o índice era de 2,32%.

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