Renovando a referência do samba aos 80 anos

Sambista lança “Passado de Glória” com canções nunca gravadas e participações especiais

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Mestre. Monarco reuniu amigos para interpretar canções inéditas, algumas escritas há mais de 50 anos
Vera Donato/Divulgação
Mestre. Monarco reuniu amigos para interpretar canções inéditas, algumas escritas há mais de 50 anos

No sábado de 27 de julho do ano passado, o sambista Monarco pode ver de perto o papa Francisco no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas deixou a santidade de lado para comparecer à gravação do disco “Cozinha do Samba”, no boteco do Irajá, em São Paulo. “Eu saí mais cedo da cerimônia e peguei uma avião correndo para Sampa porque nem Deus me afasta do samba”. É com o espírito malandro de quem ainda tem vitalidade para criar outras invenções com um tamborim e um cavaquinho em mãos, que tardiamente chega ao público o álbum “Passado de Glória” (Natura Musical), em homenagem aos 80 anos da maior lenda viva da Portela – que mês que vem chega aos 81 anos de idade em excelente forma.

Apesar do título comemorativo reverenciar o primeiro e simbólico álbum de Monarco, “Portela Passado de Glória” (1970), seu novo trabalho é composto apenas por canções inéditas, que formam uma espécie de lado B do repertório do compositor. Todas as canções foram escritas ao longo de parte vital da carreira do sambista, entre as décadas de 1940 e 1970, mas permaneciam inéditas em disco até então. “Muita coisa não coube nos meus discos ou estavam esquecidas por mim. Agora, nesse clima de comemoração, elas vieram à tona”, diz Monarco.

Da safra de 13 músicas novas, apenas uma foi feita recentemente. A melodiosa “Poeta Apaixonado”, faixa de abertura do disco, é fruto de uma parceria póstuma com Mario Lago, morto em 2002, e conserva a poesia carioca pueril da década de 40 (“nada além de uma linda ilusão / era o que ele almejava para o seu coração”).

As letras atemporais de Monarco, que respiram malandragem e vocabulário popular robusto, ainda aparecem em “Tristonha Saudade”, talvez o arranjo mais envolvente do disco, com Beth Carvalho nos vocais, e na cadenciada “Estação Primaveril”, que o sambista canta ao lado de Marisa Monte. Outros três sambas fazem saudação à Portela, como “A Grande Vitória”, em que Monarco analisa a decadência da escola azul e branca, profetizando um futuro de glórias: “Osvaldo Cruz e Madureira sentem a emoção / E o grito da garganta vai sair / E a grande vitória finalmente vai surgir”.

A escolha de canções novas em detrimento de grandes sucessos, como os consagrados “Vida de Rainha” e “Coração em Desalinho”, são o maior acerto de um disco que traz um número excessivo de convidados: são mais de 30, entre bambas como Zeca Pagodinho, Diogo Nogueira e Velha Guarda da Portela, até talentos recentes das noites cariocas, como Tuco Pelllegrino, um dos maiores novos nomes do samba do Rio de Janeiro atual, além dos filhos de Monarco, Mauro e Marquinhos Diniz. “Minha voz não é mais a mesma, os amigos ajudam a segurar a onda de gravar músicas com arranjos cheios e com muitos detalhes, além de ser ótimo estar perto de gente tão importante nessa hora de glória da minha vida”, justifica Monarco.

Para um “Passado de Glória” incontestável, Monarco escorrega ao exibir uma mancha de estigmas machistas presentes em pelo menos duas letras, herdadas do conservadorismo da velha guarda. Assim, “Insensata e Rude” julga o comportamento da mulher com adjetivos pejorativos, a partir da desilusão do homem não correspondido, e “Fingida” rotula o sexo feminino como ingrato.

Entre erros e acertos, o maior sambista em atividade do Brasil espera ter oportunidade para futuramente arriscar mais. “Se me deixarem, faço outro disco de inéditas. É só o tempo e Deus permitirem”, diz.

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