A força dos boatos

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No começo da semana passada, em meio às discussões sobre quem seria o próximo técnico da seleção brasileira, amigos atleticanos que trabalham juntos resolveram pregar uma peça em um cruzeirense que é meio novato na empresa. Na hora do almoço no refeitório, o torcedor do Cruzeiro se aproximava com a comida para sentar ao lado deles, ainda em processo de integração com os novos colegas, e estes fingiram já estar em uma calorosa conversa, com jeito sério: “Pô, acho que a escolha do Cuca pra treinar a seleção foi muito boa. O cara é o Campeão da Libertadores!”, dizia um. “Ele não é novo nem é velho, tem boa experiência e ao mesmo tempo capacidade de inovar e gosta de incentivar a base”, afirmava outro. O torcedor rival não tinha outra reação a não ser duvidar: “que história é essa?”, perguntou. “Você não viu na televisão? O Marin (presidente da CBF) chamou o Cuca pra seleção”, assegurou um atleticano. “Ficou maluco?”, ainda questionou o cruzeirense. Mas todos fizeram com tanta falsa convicção aquela cara de “cê tá por fora” que o rival começou foi a ficar vermelho. E continuaram falando que o Cuca já tinha acertado para sair do time da China, que já estava vindo para o Brasil, blá, blá, blá. O sujeito acabou engolindo, a comida e o papo dos atleticanos. Foi embora do refeitório imaginando o Cuca com o uniforme de técnico da seleção e só bem mais tarde conferiu que tinha caído no sarro dos colegas. Nesse caso foi uma brincadeira, mas o estrago de um boato bem aplicado pode ser imenso e mudar toda uma realidade. Na política, por exemplo, isso é comum. Há uns dois meses, antes da Copa, eu aguardava no aeroporto o embarque para uma viagem. O voo estava atrasado e resolvi andar um pouco nas proximidades, quando passei perto de um grupo de uns seis motoristas de táxi que conversavam. O que estava com a palavra dizia, convicto: “ele não vai ser eleito porque já falou que vai acabar com a Bolsa Família”. E nessa toada continuou falando de um candidato a presidente que iria cortar esse e outros benefícios da população. Sem entrar aqui no mérito do Bolsa Família (mesmo que já tenha havido do tal candidato a afirmação da permanência do benefício e até de ampliação), possivelmente o taxista ouviu isso de alguém que entrou em seu veículo para um corrida e não se espante se a conversa do passageiro tenha sido proposital, por saber que ali estava um ponto-chave para o assunto se espalhar. Imagine com quantas pessoas um motorista de táxi conversa durante um dia de trabalho e se ele propagar o que acredita ser verdade, não é pouca coisa. E até que se esclareça que alhos não são bugalhos, nem sempre mentira tem perna curta. Já ouvi que uma prática em época de eleição em cidades de porte médio (e não sei se só nelas), é usar cabos eleitorais dentro do transporte coletivo. Os candidatos ou seus marqueteiros pagam cabos eleitorais pra circularem dentro dos coletivos pra espalharem boatos contra seus adversários. Os sujeitos são bem orientados, falam sem estardalhaço, quase como se tivessem confidenciando, mas de maneira que todos em volta possam ouvir e depois ressoar por onde circulem. E ainda tem aquele ditado: “quem conta um conto aumenta um ponto”. Ou seja, a desgraça vai ficando bem maior que a suposta original. Acredito que agora, outra central de boatos estará mais do que aquecida nas redes sociais. Isso já vem acontecendo em eleições passadas, mas me parece que no cenário atual é que essa prática se mostrará mais profissionalizada, com um domínio maior dessas ferramentas virtuais, hoje em dimensões mais variadas. O poder crítico do eleitor é que precisa estar cada vez mais apurado, para escapar dessas armadilhas e saber onde estão as informações verdadeiras. Lembre-se de São Tomé.

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