Rubem Alves morre aos 80

Considerado um dos maiores pensadores contemporâneos da educação no país, escritor morreu por falência dos órgãos

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Internação. Rubem Alves foi hospitalizado no último dia 10 com um quadro de insuficiência respiratória, devido a uma pneumonia
JACKSON ROMANELLI/DIVULGAÇÃO
Internação. Rubem Alves foi hospitalizado no último dia 10 com um quadro de insuficiência respiratória, devido a uma pneumonia

Internado desde terça-feira (15) na UTI de no Hospital Centro Médico de Campinas (SP) com uma infecção no pulmão, o escritor Rubem Alves morreu nesse sábado, às 11h50, por falência múltipla de órgãos, após ter apresentado agravamento das funções renais e pulmonares na sexta-feira.

O corpo de Rubem está sendo velado no Plenário da Câmara Municipal de Campinas e será cremado no Crematório Metropolitano Primaveras, em Guarulhos, na Grande São Paulo. O escritor era casado com Lidia Nopper Alves e deixa três filhos.

Rubem Alves foi internado no último dia 10 com um quadro de insuficiência respiratória, devido a uma pneumonia. Na última quinta-feira, a filha o escritor, Rachel Alves, publicou uma mensagem na página dele no Facebook agradecendo o carinho e as boas energias que a família tem recebido. “Seria injusto pensar nele com dor. Uma pessoa que só tem beleza nos olhos e amor no coração – o tempo todo – alma, pura alma...”, afirmou ela.

Mineiro de Boa Esperança, nascido em 1933, quando a cidade ao sul do Estado ainda carregava uma contradição no nome (Dores de Boa Esperança), Alves foi um pensador inquieto e um criador irredutível a um punhado rótulos.

Escritor (mais conhecido pelas crônicas, reunidas em “As Melhores Crônicas de Rubem Alves”), psicanalista, teólogo e educador, Alves cultivava uma sensibilidade à poesia e aos revezes da vida e da morte. Num artigo de 2003, dizia que morte e vida não são contrárias, mas irmãs. E sugeria uma nova especialidade médica, inspirada na obstetrícia, a “morienterapia”: o cuidado com as vidas que se despedem, para que o fim seja manso, indolor e afetuoso. Sem medos.

“Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: ‘Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver’. A vida é tão boa! Não quero ir embora...”, escreveu em “Sobre a Morte e o Morrer”, em 2003.

Trajetória. Alves deixou Minas aos 12 anos para viver no Rio de Janeiro com a família e sofreu com a diferença de sotaques. A solidão o encaminhou aos primeiros estudos sobre teologia. Frequentou o Seminário Presbiteriano de Campinas e, em 1958, retornou ao interior mineiro, para a cidade de Lavras, como pastor e professor, por cinco anos. Nesse período, casou-se e teve os dois primeiros filhos, Sergio e Marcos.

Nos anos 1960, fez-se mestre em teologia em Nova York. No retorno ao Brasil, foi acusado de subversivo pela Igreja Presbiteriana e perseguido pelo regime militar. Voltou aos Estados Unidos e tornou-se doutor em filosofia, com a tese “Uma Teologia da Esperança Humana”, que contribuiria para o surgimento da Teologia da Libertação na América-Latina, defensora de uma interpretação dos ensinamentos cristão calcada na libertação de injustiças econômicas, sociais e políticas.

Alves assumiu o posto de professor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (SP) e, nos anos 1970, passaria para a Unicamp, onde seguiu carreira e integrou a Academia Campinense de Letras. Em 1975, nasceu Raquel, filha que o inspirou à escrita de contos infantis. Já na década de 1980, circulou pela Inglaterra e Itália como professor visitante e formou-se pela Sociedade Paulista de Psicanálise – um psicanalista “heterodoxo”, como dizia, por ver beleza no inconsciente.

A aposentadoria o aproximou da culinária. Abriu um restaurante em Campinas onde promovia shows ao vivo e cursos sobre artes. Não à toa, recebeu da cidade a medalha Carlos Gomes pela contribuição à cultura.

Na vasta obra do mineiro, que foi colaborador de revistas e jornais (na “Folha de S. Paulo”, escreveu mais de uma vez sobre “o morrer”), figuram títulos como “Variações sobre o Prazer”,“Por uma Educação Romântica” e “Ostra Feliz Não faz Pérola”, entre mais de 160 contos, crônicas, ensaios e biografias, que alcançaram ao menos 12 países, além de textos sobre literatura infantil, filosofia, educação e teologia

Principais obras

Literatura infantojuvenil

“A Menina, a Gaiola e a Bicicleta”

“A Boneca de Pano”

“A Loja de Brinquedos”

“A Menina e a Pantera Negra”

“A Menina e o Pássaro Encantado”

“A Pipa e a Flor”

“A Porquinha de Rabo Esticadinho”

“A Toupeira que Queria Ver o Cometa”

“Estórias de Bichos”

“Lagartixas e Dinossauros”

“O Escorpião e a Rã”

“O Flautista Mágico”

“O Gambá que Não Sabia Sorrir”

“O Gato que Gostava de Cenouras”

“O País dos Dedos Gordos”

“A Árvore e a Aranha”

“A Libélula e a Tartaruga”

“A Montanha Encantada dos Gansos Selvagens”

“A Operação de Lili”

“A Planície e o Abismo”

“A Selva e o Mar”

“A Volta do Pássaro Encantado”

“Como Nasceu a Alegria”

“O Medo da Sementinha”

“Os Morangos”

“O Passarinho Engaiolado”

“Vuelve, Pájaro Encantado”

Teologia

“A Theology of Human Hope”

“Christianisme, Opium ou Liberation?”

“Da Esperança”

“Tomorrow's Child”

“Teologia como Juego” “Variações Sobre a Vida e a Morte”

“Creio na Ressurreição do Corpo”

“Poesia, Profecia, Magia”

“Pai Nosso”

“Parole da Mangiari”

Filosofia da Ciência e da Educação

“A Alegria de Ensinar”

“Conversas com Quem Gosta de Ensinar”

Estórias de Quem Gosta de Ensinar”

“Filosofia da Ciência”

“Entre a Ciência e a Sapiência”

Biografia

“Gandhi: A Magia dos Gestos Poéticos”

Filosofia da Religião

“O Enigma da Religião”

“O Que é Religião?”

“Protestantismo e Repressão”

“Dogmatismo e Tolerância”

“O Suspiro dos Oprimidos”

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