O universo secreto da troca de casais fora das quatro paredes

Antropóloga mineira desnuda o swing em tese de doutorado feita em Lisboa e no Rio

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

“Swing: Eu, Tu... Eles” Maria Silvério Chiado Editora
Divulgação
“Swing: Eu, Tu... Eles” Maria Silvério Chiado Editora
“A sociedade secreta do sexo”, de Marcos Nogueira - Editora Leya
Reprodução
“A sociedade secreta do sexo”, de Marcos Nogueira - Editora Leya

Um é insuficiente, dois é pouco, com três começa a ficar bom e entre quatro é melhor ainda. A troca de casais é o que define o universo secreto do swing, prática em que casais estáveis mantêm relações sexuais com outros parceiros com o consentimento do companheiro, mas sempre com total discrição.

A possibilidade de variedade de parceiros e de experiências sexuais que o swing proporciona são justamente os fatores responsáveis por apimentar a relação entre os adeptos desse ousado ‘estilo de vida’, segundo a antropóloga Maria Silvério. “São casais que já estão juntos há mais tempo, casados e com filhos. Pessoas com o nível social, intelectual e cultural elevado e profissionais respeitados como médicos, advogados e engenheiros, entre 30 e 40 anos”, diz. A jornalista frequentou 14 festas swingers em clubes e saunas de Portugal e no Rio de Janeiro por dois anos, antes de escrever o livro “Swing: Eu, Tu... Eles”.

"São pessoas que você vê comprando leite na padaria, mas nem desconfia”, afirmou o jornalista Marcos Nogueira. Para o autor do livro “A Sociedade Secreta do Sexo”, o que mais chama a atenção é que não tem nada a ver com “bagunça, suruba, putaria”. “Essa prática é cheia de regras, etiqueta e todo um código de conduta que as pessoas respeitam, senão podem sair machucadas”, afirma Nogueira.

Antes de entrar para nesse universo secreto, Maria diz que o casal deve refletir e pensar sobre vários aspectos, além de conversar muito com o parceiro para falar o que quer e o que não quer, antes de se preparar para o momento. “O processo de adaptação é muito difícil, e as pesquisas demonstram que é raro encontrar casais que se envolvam nas primeiras vezes. Eles passam a pertencer àquele universo, vão frequentando e aos poucos conhecendo outros casais”, diz a antropóloga.

Então, ‘protegidos’ pelas casas de swing, a troca de olhares é, muitas vezes, o primeiro passo para demonstrar o interesse e satisfazer um desejo. “As pessoas estão ali pelo sexo, mas não obrigatoriamente elas têm que fazer alguma coisa. Por isso, existem regras de conduta. Uma delas é o ‘não’. Se um casal aborda, mas o outro não está a fim, então o casal que estava interessado vira as costas e vai embora”, afirma.

Outra regra bastante comum nesse universo é que um casal só deve chegar até o outro na presença dos dois membros. “Se um deles estiver no banheiro ou buscando bebida não é conveniente abordar só um dos membros”, diz Maria.

Eles são mais ‘atiradinhos’ no Brasil e na França

As formas de abordagem utilizadas pelos casais que querem ir além da troca de olhares foram alguns dos pontos divergentes observados pelos autores nos países em que eles visitaram. Segundo Maria Silvério, é mais comum encontrar casais entre 45 e 50 anos em Portugal.

“No Rio de Janeiro, percebi que são homens mais velhos e mulheres com um tipo físico mais atraente. Os swingers de Portugal reclamaram que perdem muito tempo conversando, e dizem que no Brasil, Espanha e França não é assim”, afirma.

Não foi o que percebeu Marcos Nogueira. “O brasileiro usa mais da conversa e das preliminares antes de partir para a ação. Na Europa e no México as pessoas são muito mais diretas na abordagem”, disse.


Entrevista com Maria Silvério
Jornalista e antropóloga - Autora do livro “Swing: Eu, Tu... Eles”

Apesar do ambiente teoricamente liberal, os swingers também têm seus tabus?
Sim. O principal tabu que percebi é em relação à bissexualidade masculina. No swing, as mulheres sempre são incentivadas pelo marido a se envolverem com outras mulheres e, em momento algum, a sua orientação sexual é questionada. Se os homens demonstram desejo ou curiosidade, são tidos como gays. Quando essa experiência chega a ser vivenciada, é sempre escondida, e outros casais ficam com ‘medo’ de se envolverem com ele.

E como fica a questão da separação entre o sexo e o amor?

Todo casal que pratica o swing tem na cabeça que eles estão nesse universo pelo sexo e não pelo amor, pois carinho e atenção eles têm apenas com o companheiro. Também tive essa dúvida, pois somos ensinados socialmente e culturalmente, principalmente as mulheres, que sexo e amor tem que estar juntos. Os swingers mostram que não.

O que eles dizem sobre isso?

Um deles me disse acha mais fácil se apaixonar no trabalho, porque se convive com muito mais intensidade e por muito mais tempo, e se você tem um desejo aquilo fica reprimido. No swing, se você está a fim, se aproxima, supre aquela vontade e vai embora. Além disso, quando somos adolescentes sempre temos a fase de ficar com vários garotos e não nos apaixonar.

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