Formação profissional é desafio

“Há realmente um déficit de animadores no mercado nacional”, afirma Virgílio Vasconcelos, chefe do departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da EBA na UFMG

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Imagem do curta em 2D digital “O Artista”, dirigido pelo aluno Louis Poague, sob orientação do professor Virgílio Vasconcelos.
louis poague / divulgação
Imagem do curta em 2D digital “O Artista”, dirigido pelo aluno Louis Poague, sob orientação do professor Virgílio Vasconcelos.

Para Alê Abreu – que começou na animação aos 13 anos e hoje, aos 43, completa 30 de carreira –, um dos maiores desafios para uma indústria de animação contínua e de qualidade no Brasil é a questão da profissionalização da área. “Quando comecei, não sabia nem o que era um festival de cinema, e fazer disso uma profissão foi algo quase involuntário. Hoje, tenho recebido contatos de muitos jovens animadores dizendo que ‘O Menino e o Mundo’ é uma referência para eles e um caminho para a animação brasileira, algo que eu nunca tive”, conta o diretor, que estreou em longas com “Garoto Cósmico”, de 2007.  

Com o fim de sanar essa defasagem da formação profissional no país, um dos investimentos do Brasil de Todas as Telas é a oferta de 20 cursos técnicos em 12 capitais brasileiras, inclusive Belo Horizonte. Entre eles, estão os de roteirista de animação, animador em stop-motion, desenhista de animação e pós-produtor de animação.

“Há realmente um déficit de animadores no mercado nacional”, afirma Virgílio Vasconcelos, chefe do departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da EBA na UFMG e professor do curso de Cinema de Animação e Artes Digitais. Antigamente uma habilitação em artes visuais, o curso é um dos pioneiros da formação na área no Brasil, desde a década de 80. Ainda hoje, ele é um dos únicos, ao lado do curso de animação da Universidade Federal de Pelotas, e Cinema e Audiovisual, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Vasconcelos conta que tem sido comum a abertura de processos seletivos para animadores em estúdios brasileiros, na produção de filmes e séries. “A necessidade de novos profissionais faz, inclusive, com que alguns estúdios criem escolas próprias para suprir as demandas”, relata.

Para ele, a principal dificuldade é que a área ainda está se estabelecendo, tanto no mercado quanto no meio acadêmico. O acesso a filmes, bibliografia e meios de produção tem sido facilitado nos últimos anos, mas ainda há obstáculos, como o encontrado por Louis Poague, aluno do oitavo período do curso. “Um problema, talvez, seja material didático. Grande parte do meu acervo foi importado”, revela Poague.

Prestes a se formar, o estudante de 21 anos confessa que sempre cogitou trabalhar fora do país. Mas as vitórias em Annecy e boas animações nacionais na TV, como “Tr(DO)omba Trem” e “Historietas Assombradas”, colocaram isso em xeque. “Surge aquela dúvida. Será que eu fico? Não perca no próximo episódio de Pokémon!”, ele brinca.

Do outro lado do espectro, a caloura Carol Lotus, que começa o segundo período do curso em agosto, percebe a falta de uma certa ousadia e confiança dos profissionais no país. “O animador precisa acreditar que é animador de verdade e acreditar no próprio trabalho”, ela opina. Para Lotus, a estrutura oferecida pelo Brasil é boa e as vitórias em Annecy são um bom sinal que deve dar mais segurança e personalidade à área por aqui. “Pode ser ingenuidade de caloura, mas estou otimista quanto à animação no Brasil, acredito muito nos talentos daqui”, professa. 

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave