Por trás de todo grande filme

Produtor, ex-chefe de estúdio e professor de cinema

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Martin Mendez Fotografo
undefined

Filho de imigrantes judeus e nascido em Los Angeles, Sandy Lieberson afirma que sua entrada no cinema foi um acaso feliz. Ainda assim, como chefe de estúdio, ele foi responsável por produções como “Alien”, “Blade Runner” e “Thelma & Louise”. Em BH para ministrar a partir de amanhã um curso no Lugar de Cinema, Lieberson descreve o que é necessário para ser um grande produtor.

De onde surgiu seu interesse por cinema e como foi seu começo na indústria como agente?

Eu nasci e cresci em Los Angeles, filho de imigrantes, mas Hollywood sempre pareceu a milhões de quilômetros de distância. Na infância, nunca pensei que cinema era uma carreira possível para mim. Minha oportunidade apareceu por acaso. Aos 18 anos, me alistei na Marinha. Quando voltei, fui estudar no Los Angeles City College, trabalhando como valete no restaurante El Dorado, na Sunset Boulevard, para me sustentar. Uma tarde, um cadilac branco chegou com uma loira linda, e o motorista era um amigo meu de colégio, Mike Rhodes. Era inacreditável. Ele me disse que era um agente, a loira era uma cliente e, imediatamente, eu perguntei se ele me arranjaria um emprego. Algumas semanas depois, ele me ajudou a conseguir uma vaga no departamento de correspondência da William Morris Agency. Eu trabalhei duro e mais horas que todo mundo e, eventualmente, fui promovido a agente. E como você chegou à chefia de produção internacional para estúdios como Fox e MGM?

Em 1961, me ofereceram uma vaga de agente em Roma, o que foi um ponto de virada enorme na minha vida. Eu descobri o cinema europeu, trabalhei com Godard, Leone, Visconti, Fellini e Orson Welles, e entendi o verdadeiro potencial do meio. Em 1965, fui para Londres representar Peter Sellers, Richard Harris e Oliver Reed e, em 1968, decidi começar a produzir. Depois de 18 filmes, documentários, uma série de TV e videoclipes, fui chamado para ser o vice-presidente de produção e marketing internacional da Fox. O primeiro filme que eu coloquei em produção foi “Alien”, em 1979... e o resto é história. Foi uma mistura de sorte, o lugar certo na hora certa, com a capacidade de combinar as sensibilidades do cinema europeu e asiático com o processo industrial dos EUA. Quais são a maior realização e o maior arrependimento da sua carreira?

Minha maior realização foi descobrir uma paixão por cinema, narrativa, e descobrir que atores estão no centro de todo grande filme. Representar atores, roteiristas e diretores me deu um respeito pelo processo criativo e o potencial do cinema. Meu único arrependimento real é não ter tido a chance de trabalhar com mais grandes cineastas e atores que eu conheci ao longo da minha carreira. Qual foi o maior desafio que você encontrou na sua carreira e como o superou?

Meu maior desafio foi estar à altura das minhas próprias expectativas do que eu queria realizar como produtor e chefe de estúdio. O jeito que encontrei de superar isso foi fazer o melhor que pude e nunca permitir que eu me tornasse complacente. Todo filme era um novo desafio e uma nova aventura. Quais você considera serem as qualidades mais essenciais e indispensáveis a um produtor? Você acredita que elas podem ser ensinadas?

Essa lista ficaria longa demais para essa entrevista (risos). Eu sempre confiei no meu instinto quanto a talento. Acho que reconhecer o potencial do cineasta e da história é essencial. Ter a confiança para contribuir e desafiar quando for o caso. Ser capaz de comunicar ideias e convencer outros da sua visão e das suas convicções. Honestidade, vigor e nunca desistir. Existem outras coisas, como levantar o dinheiro, ganhar o respeito de sua equipe e dos colegas, vender e divulgar o filme... Como alguém que vem lecionando isso tudo há bastante tempo, o que você acha que os alunos têm mais dificuldade de aprender sobre o trabalho?

Meu maior desafio é ser capaz de comunicar com os alunos de forma que eles se empolguem com o processo de aprendizagem e descoberta. A tarefa de fazer com que eles identifiquem suas próprias qualidades, cresçam a partir delas e superem suas fraquezas. Cada turma tem uma dinâmica própria, assim como a produção de um filme. Geralmente, a maior dificuldade dos alunos é entender a quantidade de energia, dedicação, paixão e trabalho duro necessários para fazer algo bom. Você acha que produtores são tão reconhecidos quanto atores e diretores pelo resultado de um filme? Ou são tipos diferentes de reconhecimento?

Para mim, o reconhecimento dos colegas é o mais importante. Nunca tive interesse em me promover publicamente, a não ser que tivesse a ver com trabalho. Quando você vê os créditos de um filme, normalmente é apenas um diretor e um ou dois roteiristas. Mas são muitos produtores: coprodutores, executivos, associados, gerentes de produção. Dez ou mais pessoas. E quem sabe o que cada um deles fez? Quem realmente produziu o filme? Quem merece o crédito? O diretor e os atores merecem os louros. Eu sei qual foi a minha contribuição para o filme e, para mim, isso é o que importa. Quais são as maiores diferenças na indústria cinematográfica hoje em relação a quando você começou nos anos 1970?

Elas têm a ver com o desenvolvimento da tecnologia digital e as formas como os filmes são oferecidos ao público. Finalmente, existe uma democracia na produção cinematográfica. Os meios técnicos estão disponíveis a todos a um custo razoável. O fato de que os jovens se satisfaçam igualmente vendo um filme no cinema, no iPhone ou iPad, ou de que o financiamento possa vir do crowdfunding e você possa distribuir o filme online. O resto é o mesmo. Você ainda precisa de pessoas talentosas, encontrar uma boa história, descobrir como contá-la e levantar o dinheiro. E quem são os melhores produtores em atividade hoje, na sua opinião?

Eu admiro o Jeremy Thomas, que produz alguns dos filmes mais originais e excitantes recentes (como “Amantes Eternos”, do Jim Jarmusch, e “Pina”, de Wim Wenders), e só produz aquilo em que ele acredita. Admiro David Heyman, que produziu a série “Harry Potter” e “Gravidade”. John Lasseter, que comanda a Pixar. E Scott Rudin (de “Onde os Fracos Não Têm Vez” e “A Rede Social”), por sua inteligência, sensibilidade artística e sucesso, entre outros nomes.

Você está familiarizado com o cinema brasileiro? Qual sua opinião sobre e ele e o que você espera oferecer aos alunos aqui?

Meu primeiro contato com o Brasil foi por meio da Carmen Miranda, que nasceu em Portugal, mas eu considero brasileira. Depois, conheci cineastas como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e, anos mais tarde, títulos mais contemporâneos como “Pixote”, “Cidade de Deus”, os filmes de Walter Salles e “Tropa de Elite”. Não sou especialista, mas admirador. É um cinema com vitalidade, senso de justiça, qualidade artística e futuro! O que eu pretendo oferecer aos alunos é uma perspectiva internacional focada no cinema independente. O potencial na realização de baixo ou nenhum orçamento, usando os modelos norte-americano e dinamarquês. Usar as várias plataformas disponíveis online para distribuição e mídias sociais para marketing. Vou passar pelos principais estúdios e examinar seus métodos e estruturas operacionais. Vou encorajar os alunos a pensar como produtores e direcioná-los aonde o dinheiro está. Vou incentivar o empreendedorismo e mostrr como produção pode ser tão criativa quanto direção e roteiro. E não vou falar de futebol. Mais informações sobre o curso no site www.lugardecinema.com.br ou pelo fone (31) 3658-2016.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave