A hora e a vez da animação brasileira

Vitórias e reconhecimento internacional no principal festival do gênero, colocam produção nacional nos holofotes

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

“O Menino e o Mundo”, dirigido por Alê Abreu e vencedor do Festival de Annecy em 2014
Divulgação
“O Menino e o Mundo”, dirigido por Alê Abreu e vencedor do Festival de Annecy em 2014

Quase ignorada quando estreou no Brasil, a animação “Uma História de Amor e Fúria”, dirigida por Luíz Bolognesi, teve sua história mudada em junho do ano passado, quando ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Annecy, o principal do gênero no mundo. Desde então, o filme já passou por mais de 40 festivais – com prêmios no Japão, China e Grécia –, além de ter sido vendido para vários outros países. Na semana passada, estreou na Itália, e ainda este ano chega na Espanha e Coreia do Sul. Já são mais de 70 mil espectadores lá fora, mais do que o público do longa no Brasil.  

Ainda assim, Bolognesi confessa que não sabe se vai conseguir produzir seu próximo filme, “Viajantes”, outra animação. “Comecei a desenvolver com um pequeno investimento da minha produtora, mas para os próximos passos, preciso de uma equipe. E não sei, pode ser que eu nunca mais faça animação”, revela.

Isso porque o feito de “Uma História de Amor e Fúria” – superado por “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, que neste ano venceu os prêmios de melhor filme segundo o júri e o público em Annecy, já passou por 40 festivais, tem mais 30 pela frente, acumula 17 prêmios, foi vendido para 20 países, é o filme nacional mais premiado do ano e um dos maiores sucessos internacionais da história do cinema brasileiro – botou o nome do Brasil no cenário da animação mundial, mas ainda não criou um cenário animador aqui dentro.

“A gente já teve um momento do documentário no Brasil, mas agora é a vez da animação. As duas vitórias em Annecy deixam claro isso, que os holofotes estão voltados para cá”, opina Alê Abreu. Elas, no entanto, não se converteram em uma política pública específica para a área. No início do mês, o governo federal anunciou o investimento de R$ 1,2 bilhão no audiovisual por meio do Brasil de Todas as Telas. O programa, porém, não criou nenhuma linha de financiamento voltada especialmente para a animação.

“Lá fora, o filme é ovacionado com todas as glórias, e aqui não recebi nem um telegrama me parabenizando pelo prêmio. Ele não representa nenhuma facilidade de financiamento porque o governo cria gatilhos automáticos para os sucessos de bilheteria, mas os filmes de mérito artístico, que estão criando linguagem e representando o cinema brasileiro no mundo inteiro, são tratados aqui como vira-latas. Acho isso bem lamentável e fico bem desanimado”, desabafa o diretor.

Mesmo assim, segundo dados da Ancine, existem hoje no Brasil 93 projetos de animação sendo produzidos no país: 30 para cinema, 58 para TV e 5 para home vídeo. O problema, segundo Bolognesi, é que eles têm que disputar e seguir as mesmas regras dos editais destinados a produções live-action, que não entendem nem atendem às especificidades da animação.

Recursos. Os recursos liberados para a fase de desenvolvimento de um live-action, por exemplo, são ínfimos porque geralmente envolve apenas a elaboração do roteiro e aquisição de direitos. A animação é uma história completamente diferente. “É nela que se cria a linguagem da animação que será usada, em que se desenham os story boards, animatics, o traço dos personagens. É necessária toda uma equipe, é bem mais pesada e importante que seja bem feita porque afeta diretamente os gastos e a qualidade na fase de produção. E a indústria brasileira não entende isso”, explica Bolognesi.

Que o diga Alê Abreu, que teve que inventar um software para a mistura de técnicas utilizada em “O Menino e o Mundo”. “Era como a sobreposição de uma sobre a outra no papel, e o desafio foi viabilizar isso no computador sem parecer que foi feito no computador”, descreve.

É essa originalidade que está sendo reconhecida em Annecy. O Brasil sempre teve uma tradição em animação publicitária, inclusive com prêmios internacionais. Mas é a primeira vez que o país é enxergado como um polo de animação autoral. “É muito importante ser percebido como autores e artistas talentosos, e não apenas fornecedores intermediários de mão de obra barata”, argumenta Virgílio Vasconcelos, professor de animação da Escola de Belas Artes da UFMG.

“A sensação que eu tenho é que é o mesmo que aconteceu com a Bossa Nova nos anos 1960. Coisa simples, um banquinho, violão, com uma qualidade percebida lá fora para depois ser valorizada aqui dentro. É como se a França estivesse dizendo que nosso vinho é bom”, compara Bolognesi. É o fato de que o sistema de produção brasileiro permite esse tipo de pesquisa de linguagem que faz com que Alê Abreu tenha uma visão bem mais otimista que Bolognesi do cenário da animação no Brasil.

“Não quero fazer filme em nenhum outro lugar do mundo. ‘O Menino e o Mundo’ é o que é porque não tive um produtor falando ‘não pode fazer isso porque não vai dar certo’”, afirma Abreu. Para ele, o papel do país é continuar permitindo essas “maluquices” porque são elas que criam linguagem e abrem portas. “Japão, Europa Oriental, França, EUA têm um estilo de fazer animação. E não adianta querer reproduzir esses estilos aqui. Temos que desenvolver uma animação brasileira. Essa sempre foi minha preocupação”, propõe.

Brasil animado 12 longas de animação nacionais foram lançados entre 2003 e 2014. Entre 1995 e 2001, foi apenas 1

93 projetos de animação se encontram em produção atualmente no país, para TV, cinema e home vídeo

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave