Descendo o morro

A música da periferia está ditando, mais uma vez, a moda! Conheças as novas it-girls da categoria e o poder do “bling ring”

iG Minas Gerais | Lorena K. Martins |

A rapper Iggy Azalea em um dos seus looks excêntricos. Seu topete no cabelo é uma das marcas registradas
OMAR VEGA/AP
A rapper Iggy Azalea em um dos seus looks excêntricos. Seu topete no cabelo é uma das marcas registradas

Em tempos em que a festa no morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, é a nova saída hype do fim de semana, o baile funk carioca tornou-se balada VIP – destaque para o Baile da Favorita na próxima sexta (25) – e “ostentar” é o novo verbo e tratando-se de estilo, o comportamento da rua, mais precisamente do “morro”, vem conquistando seu lugar na moda, como uma tentativa se alcançar, por vias contrárias, o mainstream. 

O motivo é simples. Na tentativa de se reinventar a qualquer custo em momentos de carência de novidades, o fashion se permite captar novos caminhos criativos, novas leituras e possibilidades dentro do mercado cultural. “Parece natural, portanto, que a moda se alimente de “movimentos” como funk e hip hop, que ela busque certa estetização dos morros e das favelas, seguindo um caminho que já vinha sendo traçado por outros eixos, como o cinema e a música”, explica Thiago Pereira, jornalista, mestre em comunicação social e coordenador do curso Narrativas Possíveis do IEC/PUC Minas.

Se é declarado que moda é um reflexo da nossa personalidade – incluindo-se também os gostos musicais–, as cantoras dessas culturas invadem o mundo fashion e conquistam devidamente o espaço dentro do que se propõem a fazer. “A grande influência de culturas como o reggae e o hip hop em metrópoles fortemente cosmopolitas, como Nova York e Londres, começam a penetrar fortemente em outras camadas sociais no Brasil a partir dos anos 90, com a combinação entre a popularização de artistas gringos e o mainstream lá fora, desembarcando nas rádios e em outras mídias daqui”, contextualiza Pereira. Exemplo do fenômeno é visto hoje com o trio de rap feminino vindo da favela do Vidigal, intitulado “Pearls Negras”. Depois de virarem sensação musical por aqui e lá fora com o hit “Pensando em Você”, também são aclamadas também pelo estilo, com inspiração nas divas do pop como Beyoncé, Iggy Azalea e Rihanna para compor o figurino de cada apresentação.

Estilo bling ring

No mesmo barco estão a M.I.A., uma das primeiras cantoras a divulgarem seu estilo peculiar – muito animal print, dourado e neon –, a rapper curitibana Karol Conká, a cantora Anitta e as internacionais Azealia Banks e Iggy Azalea, it-rappers do momento. Elas, de fato, adoram o chique, traduzido como bom gosto, construído por itens nada básicos, mas que não beiram o cafona. Não economizam nos acessórios-ícone – das unhas postiças às modelagens bem ajustadas ao corpo com o toque fundamental do glamour. Mesmo guiadas por uma overdose fashion totalmente equilibrada, elas adaptam esses elementos para dizer quem são. A elas mesmas e aos outros, é claro.

“Me agradam, inclusive esteticamente, essas novas tendências. Boa parte dessas artistas usa e abusa de cores e referências múltiplas. De certa forma me parece que esse acúmulo de referências é um pouco a cara do mundo contemporâneo, que cria uma noção de glamour a partir de pontos de referência até então meio escamoteados – dos bailes funk, dos grafites do hip hop e suas expressividade própria”, acredita Pereira.

Rio, um caso à parte

Não é de hoje que as favelas cariocas são pano de fundo de clipes, filmes e que se tornaram paraísos dos gringos. Neste ano, o artista plástico Vik Muniz e a produtora de cinema Jackie de Botton compraram casas no local. No mês passado, a rapper Iggy Azalea gravou seu clipe “No Mediocre” também na Cidade Maravilhosa. Em janeiro, a edição da revista “Vogue” trouxe a top Cara Delevingne clicada na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, com o grupo de funk Os Leleks – sucesso na época. Mesmo com o cenário colorido da comunidade, a publicação trouxe algo a mais: editoriais muito bem explorados com inspirações do funk – dos tênis couture, elementos do streetwear, como bonés de aba reta e acessórios que recriam a ostentação, de forma sutil, no maior estilo bling ring.

Já reparou que os elementos da moda da rua são tendência da vez? “Ao mesmo tempo em que o indivíduo inventa moda para afirmar sua distinção, sua diferenciação, enfim, sua identidade, ele serve também à padronagem (tendências, publicidade, regras coletivas, por exemplo)”, disse a socióloga Wânia Maria de Araújo, no livro “Olhares Contemporâneos”. Partindo desse pressuposto, só nos resta tirar proveito de tudo isso.

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