‘O incidente poderia colocar um ponto final às hostilidades’

MARCOS TROYJO - Economista e cientista político; Professor de Relações Internacionais da Universidade Columbia, em Nova York e Conferencista convidado do Ibmec /RJ

iG Minas Gerais | FLÁVIA DENISE |

“Não tem ninguém inocente ali. São interesses se chocando”
Arquivo pessoal
“Não tem ninguém inocente ali. São interesses se chocando”

Marcos Troyjo avalia a situação atual da Ucrânia com um olhar positivo, enxergando a queda do voo MH17 como uma mudança de paradigma, que possibilitaria um acordo de paz entre Ucrânia e Rússia, cuja relação atingiu um “grau de tensão incomparável”.

Como fica a relação da Ucrânia com a Rússia agora?

Arelação, que já vinha muito complicada mesmo antes da queda do presidente (Viktor Yanukovich), e da anexação da Crimeia, agora atingiu um grau de tensão incomparável. Deixou de envolver apenas cidadãos ucranianos ou russos para envolver nacionalidades de dezenas de países. Esse episódio é um grande divisor de águas.

O que pode mudar agora? 

Empresas e certos indivíduos da Rússia já estão sofrendo sanções, mas esse episódio pode gerar consequências contra o país como um todo. Se for provado que a queda do avião foi causada por um separatista ucraniano alimentado por Moscou, isso deixa de ser um problema político para se tornar um problema jurídico para a Rússia. O país faz parte de convenções internacionais que proíbem esse tipo de ação.

Não faltam ucranianos acusando os separatistas ou a Rússia, mas o presidente ucraniano tem uma atitude neutra. Por quê?

O presidente (Petro) Poroshenko adotou uma retórica conciliatória com Moscou. Eles são vizinhos, têm uma história comum, é muito difícil eles não terem relações. Mas estão num grau de acirramento de nervos muito elevado.

O que podemos esperar para a região?

Olhando pelo copo meio cheio, se há algo que pode ocorrer de positivo, é, talvez, uma cessação das hostilidades. A força mais poderosa na área é a política russa. Se houver uma vontade manter as fronteiras por parte deles, se acharem que a anexação da Crimeia é o bastante, esse incidente, que foi horrível, poderia colocar um ponto final às hostilidades.

É possível a paz na região nesse momento? 

Sim, é possível. O montante da pressão internacional ao Kremlin – isso se for provador que o míssil era dos separatistas, e que eles contaram com a ajuda russa – será gigantesco, inclusive vindo de seus aliados. Sabe o ditado da Bíblia: “Diga-me com quem andas, e te direi quem és?”. Pois é, será muito difícil para os países se aliarem à Rússia com essa pressão.

Quem ganha nessa situação? 

Não tem ninguém inocente ali. São interesses se chocando. A Rússia não ganha, apesar de ela ter anexado a Crimeia. A Rússia, seus cidadãos e suas empresas estão sofrendo sanções e podem sofrer sanções ainda maiores. Dada a dimensão do acidente, os aliados da Rússia não vão conseguir ficar de mãos dadas. A Ucrânia não tem a ganhar. Ela tem forças armadas singelas, se comparadas com as da Rússia, uma parte do seu território foi engolido e tem possibilidade de perder ainda mais. Todas essas atividades consomem muito. A Ucrânia deveria estar preocupada em gerar riqueza, mas tem que atentar para uma situação de quase guerra civil. Os Estados Unidos não ganham. Na doutrina Obama, eles estão numa situação de sair do mundo, sair do Iraque, dar atenção econômica para a Ásia. Duvido que os Estados Unidos se submeteriam a uma aposta tão alta como essa.

Qual seria a solução?

Dado o ponto em que nos encontramos, a solução seria uma efetiva trégua por parte dos separatistas. Uma trégua reconhecida e respeitada por ambos os governos centrais. Eventualmente, teria o convite – de ambas as nações – para que uma terceira parte se tornasse uma garantidora do processo de trégua até que as fronteiras fiquem consolidadas.

Essa trégua seria o reconhecimento de Donetsk como um Estado?

A trégua não precisa ser o fim de um processo. Ela tem que ser um ponto pacífico. “Vamos fazer a paz agora, o desarmamento agora, e, depois, vamos para a mesa com uma terceira parte com uma lista de supermercado do que precisa ser resolvido”.

Essa não é uma visão otimista? 

Não é otimismo. Dessa situação pavorosa, pode sair uma flor do lodo. Você conhece a soma zero? Sempre que alguém ganha, alguém perde. Essa situação é uma inversão disso. Ninguém tem a ganhar.

A situação está gerando uma polarização do cenário? 

Eu não sei se gera uma polarização. Eu acho que acirra o que já foi gerado. O discurso do Putin (presidente russo) é que a crise da Ucrânia é resultado da “irresponsabilidade das potencias europeias”, da tentativa de exercer influência no quintal russo. Por outro lado, a Ucrânia faz o que quiser. Existe uma relação de amor e ódio com a Rússia, uma relação de cooperação e conflito. A Rússia quer ser a principal potência da região, mas os outros países querem fazer negócios com a China, com a União Europeia com os Estados Unidos.

Como o Brasil fica nessa situação? 

O Brasil tem muito interesse no desenvolvimento da plataforma Brics. Não somente pelos países em si, mas pela potencial mudança do eixo de poder. O Brasil quer ser um pivô entre potências. Acho muito difícil o Brasil dar um cheque em branco para a Rússia. O Brasil tem uma longa história de defesa dos direitos internacionais, de jogar às abertas, e, se ficar provado que a Rússia forneceu os armamentos, eu duvido que o Brasil possa se aliar a eles.

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