Amigos destacam alegria e erudição de João Ubaldo

Escritor é lembrado pelo bom humor com que encarava a vida e pela vasta bagagem cultural

iG Minas Gerais |

Ubaldo com Jorge Amado, por quem tinha verdadeira adoração
REJANE CARNEIRO
Ubaldo com Jorge Amado, por quem tinha verdadeira adoração

Rio de Janeiro. Ninguém ocupa a mesa próxima à varanda. Um copo vazio foi deixado sobre o móvel. Assim, João Ubaldo Ribeiro foi homenageado pelos donos do restaurante Tio Sam (Leblon, zona sul), frequentado pelo escritor há 20 anos. A mesa de João Ubaldo ficou reservada por todo o dia. Segundo a gerente Cristiane Esteves, 35, Ubaldo costumava ir lá aos “sábados, domingos e feriados”. Chegava por volta das 11h e ia embora entre 14h e 15h. “Estava sempre cercado de amigos”. 

O acadêmico bebia chope em tulipa e comia Camarão ao Tio Sam, com pequenas alterações: pedia que o fruto do mar fosse cozido “no bafo”, em vez do empanado tradicional, e o arroz à grega viesse sem passas.No Carnaval passado, o bloco Areia, que se concentra na rua Dias Ferreira (endereço do Tio Sam), homenageou o escritor e os amigos.

Foi no Tio Sam que o letrista Abel Silva encontrou, no domingo, João Ubaldo assistindo à final da Copa do Mundo, torcendo pela Alemanha. “Ele tinha um neto alemão, filho do Bento Ribeiro”. “Perdemos um extraordinário brasileiro. Algumas pessoas são insubstituíveis, sim. João Ubaldo era uma delas”.

Para o compositor, não há mais ninguém como Ubaldo Ribeiro no país. “Ele vem de uma linhagem de escritores brasileiros ligados à tradição e ao conhecimento da fala e da mitologia popular. Herança popular acrescentada de uma cultura sofisticadíssima de um tradutor de Shakespeare, profundo conhecedor da literatura brasileira. E era também muito modesto. Era poliglota e jamais o vi usar expressões em inglês ou alemão, por exemplo, línguas nas quais era fluente”. “Foi uma das melhores pessoas que conheci na vida”.

O contista Sérgio Sant’Anna destaca a importância de Ubaldo para a literatura. “Foi um grande perda e uma surpresa também”, comentou o colega. Sant’Anna conhecia João Ubaldo há mais de 20 anos. “Convivi com ele numa época em que era muito falante. Além de ser um grande escritor, era engraçado, muito inteligente”.

Para Lima Duarte, Ubaldo “deve estar rindo da embolia e de todas as embolias de que somos vítimas”, disse sobre o amigo. Vencedor dos prêmios de melhor ator nos Festivais de Gramado e de Havana (Cuba) por sua atuação como o protagonista do filme “Sargento Getúlio” (1983), baseado no livro homônimo de Ubaldo, Duarte considera que a morte do baiano “fecha uma das mais gloriosas páginas da literatura e até do cinema brasileiro”.

“Ele era um amor de pessoa. Me ensinou a rir de tudo, especialmente das coisas que não merecem riso”. Duarte lembra, ainda, que o pai de Ubaldo obrigava o filho a ler um livro por dia. “Ubaldo era um erudito”, disse.

Genial. Outro amigo de João Ubaldo, o escritor mineiro Antônio Barreto fala da tristeza pela perda do escritor. “Foi um homem genial em todas as áreas que atuou, além de ser muito engraçado. Vai deixar saudades”, disse.

Barreto se recorda de que, no dia em que conheceu Ubaldo, – “não lembro se foi em 1984 ou 1985” – os dois seguiram direto para o bar Amarelinho, no Rio de Janeiro, em frente à Biblioteca Nacional, e lá ficaram por quase 12 horas. “Era um brincalhão, um gozador da vida. Acho que é essa imagem dele que deve ser preservada – e digo isso mesmo sentindo uma enorme tristeza pela sua morte”.

O último encontro pessoal entre os dois aconteceu quatro meses atrás. “Ele já não estava bem, tinha dificuldade para respirar”, relata Barreto. As trocas de e-mails continuaram desde então. “João sempre foi muito resistente ao uso de computador, mas aos poucos foi cedendo. Lembro que, antigamente, ele preferia escrever à mão, depois passar para a máquina de escrever”, disse.

Na última conversa, os dois falaram sobre a importância do intelectual ser “independente de influências políticas e do ‘sistema’ para que possa usufruir de liberdade própria”. Para o mineiro, todos os trabalhos que Ubaldo Ribeiro fez, nas mais diferentes áreas, carregaram a liberdade de expressão. “João foi um lutador pela a liberdade”, comenta. “Outra coisa muito importante é que João foi um escritor tipicamente brasileiro de seu tempo”.

Escritor e idealizador do Sempre Um Papo, Afonso Borges concorda com Barreto. “O Brasil perdeu o melhor contador de histórias sobre o povo brasileiro, além de perder uma voz crítica na imprensa”, disse.

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