A literatura na moda de Fraga

Mostra apresenta peças de duas coleções do estilista mineiro no Centro de Referência de Moda até dezembro

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Drummond. Peças inspiradas no poema “Todo Mundo e Ninguém”, de 2005, compõem a exposição
Fernanda Calfat / divulgação
Drummond. Peças inspiradas no poema “Todo Mundo e Ninguém”, de 2005, compõem a exposição

Ronaldo Fraga é um dos melhores exemplos de como há, na moda brasileira, estilistas que vão além das idiossincrasias estereotipadas – um tanto usuais nessa indústria –, conduzindo criações de forma inventiva e baseadas em fontes múltiplas e sólidas. 

No caso do estilista mineiro, a literatura é a base para a criação das vestimentas. Duas das coleções de Fraga que correspondem a essa ideia serão expostas, em parte, a partir de hoje, no Centro de Referência da Moda.  Vinte peças integram a mostra “Moda e Literatura por Ronaldo Fraga”. “A literatura é uma grande fonte de referência e experimentação para mim. Usei dessa arte em todas as coleções que já criei, seja de forma explícita ou não”, comenta o estilista mineiro. Para essa exibição, Fraga se concentrou nas peças criadas para as coleções Todo Mundo e Ninguém – na qual se utilizou do poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), dando vida às peças apresentadas para o inverno de 2005 – e A Cobra Ri – que trouxe trajes inspirados no livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa (1908-1967), para o verão de 2007.  “Quando o pessoal do Centro me pediu uma pequena mostra, que tivesse como tema o Brasil, não hesitei em usar peças das coleções desses dois escritores que, além de brasileiros, são mineiros”, afirma Fraga. Proposta aceita, ele escolheu os looks que considera significativos não só para aqueles íntimos do cenário fashionista, mas também para quem aprecia a cultural brasileira em geral. Além de serem ainda um instrumento de estímulo para que os visitantes possam conhecer obras inspiradoras.  “Certa vez, ao dar uma palestra para 700 jovens no Piauí, um deles se levantou e disse que só leu o ‘Grande Sertão: Veredas’ depois de assistir ao desfile pela televisão”, diz. “Na mostra, coloquei as roupas misturadas para que as pessoas possam identificar qual é de cada tema”. Brasilidade. Expostas pela primeira vez no mesmo local, as coleções refletem a pluralidade e lugares da memória do Brasil ao replicarem estampas, cores e ícones identificados nas narrativas literárias. Um resultado da interpretação e do constante interesse de Fraga, que, com o passar o tempo, tornou-se reconhecido inclusive dentro de universidades. “Fui informado que ninguém ainda havia utilizado obras desses autores como inspiração para criar uma coleção de moda. Hoje, elas têm motivado estudos acadêmicos tanto na área de semiótica quanto na de literatura”, conta.    Para o estilista, a literatura brasileira é muito rica e, por isso, ele não tem dificuldade em falar de outros autores que poderiam ser inspiração em sua área. “Machado de Assis, antes de ‘entregar’ o personagem, descreve-o por inteiro e isso é muito forte nas obras dele. Não posso esquecer do Mário de Andrade, que deixou um legado maravilhoso e com muitas referências para a moda”, diz.  Agenda O quê. Mostra “Moda e Literatura por Ronaldo Fraga” Quando. De hoje até dezembro Onde. Centro de Referência da Moda (rua da Bahia, 1.149, centro) Quanto. Entrada franca

 

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