Quanto mais Wilder, melhor

Retrospectiva no Cine Humberto Mauro resgata a filmografia completa de Billy Wilder, “gênio do sistema”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Icônico. Imagem de Marilyn Monroe e seu vestido esvoaçante em “O Pecado Mora ao Lado” entrou para história do cinema
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Icônico. Imagem de Marilyn Monroe e seu vestido esvoaçante em “O Pecado Mora ao Lado” entrou para história do cinema

“Ninguém é perfeito”. “Ok, Mr. DeMille, estou pronta para o meu close”. “Más notícias vendem mais. Porque boas notícias não são notícias”. Alguns diretores assinam seu nome na história do cinema com o sucesso obtido por seus filmes. Outros, com o retrato crítico que fizeram do ser humano e da sociedade em suas obras.

Billy Wilder fez as duas coisas. E depois, logo abaixo da assinatura, escreveu uma linha de diálogo com uma piada genial que fez todo mundo rir. “Fazer filmes é como entrar numa sala escura. Algumas pessoas tropeçam nos móveis, outros quebram a perna. Mas alguns de nós enxergam melhor no escuro. O truque é convencer, persuadir”, ele descreveu.

É o segredo desse truque que o cine Humberto Mauro tenta revelar a partir de hoje com a mostra “Billy Wilder: Gênio do Sistema”. Até o dia 7 de agosto, a retrospectiva exibe a filmografia completa, 27 longas, do diretor que ficou conhecido por algumas das melhores comédias de todos os tempos (“Quanto Mais Quente Melhor”, “Se Meu Apartamento Falasse”), mas que realizou clássicos em quase todos os gêneros: noir (“Crepúsculo dos Deuses”, “Pacto de Sangue”), drama (“Vício Maldito”, “A Montanha dos Sete Abutres”), comédia romântica (“Amor na Tarde”).

“Não é apenas a variedade, é a capacidade de dirigir obras-primas em todos os gêneros. O pior filme do Wilder é bom. Ele começa no bom e sobe até a obra-prima”, afirma o curador da sala, Rafael Ciccarini. Para ele, o mais impressionante é que o cineasta conseguiu isso trabalhando dentro das engrenagens do sistema hollywoodiano. Escalando atores famosos, dando à indústria o que ela queria e usando as restrições da censura da época, o Código Hays, como fagulha criativa para refinar a forma de expressar a visão crítica do mundo que ele trouxe dos tempos de jornalista.

“Tem diretores que querem quebrar esse sistema, subverter. A tática do Wilder era usar as regras do jogo para ir além, o que requer senso comercial e é dificílimo”, reflete. Se cinema comercial norte-americano hoje significa Michael Bay e “Transformers”, justificando a qualidade dos filmes pela pretensa burrice do público, nos anos 1940 e 50, o diretor de origem austríaca usava a leveza de suas obras para mascarar a inteligência das questões morais sobre sexo, tabu e desejo que ele discutia nelas. “Hollywood hoje vende a ideia de que cinema é para divertir, e não para pensar. Por que não se pode pensar e divertir? É a pergunta que o cinema do Wilder responde”, argumenta Ciccarini.

É o talento com que ele realiza essa associação entre o pensar e o divertir que fez com que o cineasta se eternizasse como o mestre da ironia e dos duplos sentidos em seus roteiros – e o diretor hollywoodiano favorito de Ingmar Bergman. Apesar de focar a retrospectiva exclusivamente no trabalho de Wilder na direção, a mostra reconhece sua genialidade como roteirista no filme de abertura, “Ninotchka” – uma comédia romântica com uma verve política fortemente provocativa que é puramente wilderiana. Roteirizado pelo austríaco e estrelado por Greta Garbo, o longa de 1939, exibido hoje às 17h, foi dirigido por Ernst Lubitsch, grande mestre de Wilder.

“A relação de admiração e inspiração com Lubitsch é a parceria mais decisiva da carreira de Wilder. Ele tinha uma plaquinha no escritório escrito ‘o que Lubitsch faria?’”, conta o curador. A filmografia do cineasta, aliás, seria marcada por essas parcerias – desde o amigo e co-roteirista I.A.L. Diamond, até os atores Jack Lemmon e Marilyn Monroe, com quem ele mantinha uma relação de amor e ódio. “Seios de granito e cérebro de queijo suíço”, é como ele a definia.

Além da abertura, o Humberto Mauro vai reconhecer o trabalho de Wilder como roteirista também nas sessões da História Permanente do Cinema, todas as quintas-feiras. E a mostra oferece ainda, no dia 5 de agosto às 19h, uma palestra com a professora da UFMG Ana Lúcia Andrade – provavelmente a maior especialista em Billy Wilder no Brasil e autora do livro “Entretenimento Inteligente”, sua tese de doutorado sobre a obra do cineasta.

Mas a opção de focar na obra de Wilder como diretor não é por acaso. Para Ciccarini, o fato do polonês ser tão associado à qualidade dos seus roteiros e diálogos (sobre os quais os atores não podiam improvisar) pode passar a impressão de que ele era um diretor médio ou protocolar. O que não é o caso.

“No talento dele para conciliar ritmo de cena com posicionamento dos atores em cena está escondido o segredo da dificuldade de se fazer a comédia perfeita”, explica o curador. As imagens do vestido esvoaçante de Monroe em “O Pecado Mora ao Lado” e do corpo de William Holden flutuando na piscina em “Crepúsculo dos Deuses” são tão fortes quanto a genialidade da frase final de Lemmon em “Quanto Mais Quente Melhor”. Porque talvez ninguém seja perfeito. Mas Wilder é.

Programe-se

“Gênio do Sistema”

Quando. De hoje a 7/8

Onde. Cine Humberto Mauro – av. Afonso Pena, 1.537, Centro

Programação completa. www.fcs.mg.gov.br

Entrada gratuita

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