Inquilino querido

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Quero lhe dar as boas-vindas. Há muito tempo esperava alguém assim, com seu perfil, para ocupar um dos cômodos desta casa, por onde já passou tanta gente, que nem lembro os nomes. Mas prometo que, com você, será diferente. Sua passagem aqui será inesquecível, é só você não se esquecer de que está de passagem. Insisto que se sinta à vontade o quanto antes. Pode trazer os amigos, quantos e quando quiser. Não sou dessas pessoas que ignoram a bagagem alheia ou exigem exclusividade no afeto. Só não espere camaradagem do lado de cá ou que eu não implique com eles. Da família, prefiro manter uma distância estratégica. É só um jeito de manter a intimidade nos limites previstos no contrato. Com o tempo, vai colocando suas coisinhas por aí. É importante deixar suas marcas, imprimir personalidade onde se aboleta. Vou me divertir tropeçando na sua criatividade e em resquícios de bom humor. Aliás, foi por conta desses detalhes que escolhi você para essa temporada. O que não dá é para mudar a cor das paredes, trocar os móveis de lugar, tentar arrumar os papéis na gaveta ou jogar fora o que lhe parecer tranqueira. Também não coloque cortinas na janela. Não quero perder nada do que se passa lá fora.  O quintal é grande e espero que você o ocupe com festas, folias e sorrisos, sem hora para acabar. Tem um cantinho do conforto, onde sempre bate sol, para você se refestelar com preguiça. Só não se incomode se, de vez em quando, um ou outro convidado meu estiver jogado por lá. Vai acontecer às vezes, aviso já. Como essa vida em comum tem prazo de validade, vamos nos poupar dos fluidos, cheiros e idiossincrasias alheios. Costuma ser brutal e capaz de destruir esse império de ficção que estamos nos propondo. Vamos ficar no superficial, no ligeiro e, por que não, no leviano. Pode mentir sem culpa. Garanto que vou fazer isso também. Ser verdadeiro, honesto e fiel é uma construção difícil e não vamos ter tempo suficiente para isso. Você vai aprender rápido que sou perfeitamente adaptável a qualquer pessoa que se adapte a mim. Tenho poucas manias, mas as mantenho com apego inegociável. Preste atenção na cláusula que proíbe qualquer crítica ao meu jeito de levar a vida e naquela outra que impõe respeito absoluto aos meus momentos sagrados de solidão.  Costumo esconder o lixo sob o tapete, mas só penso nele excepcionalmente. Violá-lo é assumir um risco enorme, porque esses escombros geralmente impõem suas reivindicações. Aconselho a deixá-lo onde está. Poupamos assim idas ao síndico, ao médico ou ao analista. Para que ninguém se sinta subjugado, vamos dividir todas as contas, afinal o que está começando aqui é uma parceria. Não confunda com dividir a vida.  Se tudo der certo como parece predestinado, pressinto que, com o tempo, você vai começar a reclamar como direito fundado ou suposto mais espaço na casa, mais poder de decisão sobre a rotina dos moradores ou até a renovação do contrato por período indeterminado. Já passei por isso antes e é tão inevitável quanto chato. Então, não desperdice vocabulário e energia. Daqui de cima, vou olhar com o descaso da minha folgada experiência, cobrar a multa por você romper nosso combinado e recomeçar uma fresca relação com um novo inquilino, carregado de fé e boa vontade, mas que chega já sabendo que está de saída. No mais, vamos começar a nos divertir imediatamente. A casa é sua. Por enquanto.

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