Quando Dalí encontra Dante

A exposição “Dalí – A Divina Comédia”, com cem pinturas de Salvador Dalí , abre hoje na Academia Mineira de Letras

iG Minas Gerais | carlos andrei siquara |

Obras. Pinturas de Dalí foram criadas durante uma média de cinco anos e percorrem os círculos do inferno, do purgatório e do paraíso descritos por Dante
Obras. Pinturas de Dalí foram criadas durante uma média de cinco anos e percorrem os círculos do inferno, do purgatório e do paraíso descritos por Dante

Tão monumental quanto a obra “A Divina Comédia”, escrita por Dante Alighieri (1265-1321), pode ser considerada também a coleção de cem pinturas inspiradas nesse poema produzidas por Salvador Dalí (1904-1989). O conjunto de peças, que narram visualmente a trajetória do poeta pelo inferno, pelo purgatório e pelo paraíso, chega a Belo Horizonte, na mostra “Dalí – A Divina Comédia”, onde pode ser vista pelo público a partir de hoje, na Academia Mineira de Letras.

“Esse acervo pertence a colecionadores e pela primeira vez foi reunido totalmente para ser apresentado dessa maneira. É uma oportunidade muito interessante para as pessoas conhecerem essas criações que até o presente foram difíceis de serem vistas juntas”, sublinha Ania Rodriguez, curadora da exposição, que estreou em 2012 no Rio de Janeiro e depois viajou para Curitiba, Recife, São Paulo e Salvador antes de chegar aqui.

Rodriguez recorda que os trabalhos foram encomendados ao pintor catalão pelo governo italiano entre anos de 1950 e 1960, em razão da celebração dos 700 anos de nascimento de Dante. Isso, no entanto, provocou a reação de artistas italianos que criticaram a ideia de ter um trabalho dessa magnitude realizado por um artista espanhol. A atitude bairrista acabou afetando o acordo com Dalí, mas ele resolveu não retroceder.

“A encomenda desmanchou, porém Dalí já estava totalmente comprometido com o projeto. Ele, provavelmente, já tinha começado a fazer algumas ilustrações e mesmo após essa decisão do governo italiano o artista seguiu com o objetivo de ilustrar todo o poema, tomando para si a tarefa como um trabalho individual”, diz Rodriguez.

Tida como um grande marco da literatura universal, a obra do poeta italiano, para a curadora, provocou um extremo fascínio em Dalí, o que o estimulou a dar sequência a essa empreitada. “Ele foi incentivado pela ideia de ilustrar o texto do poeta que é considerado uma dos maiores de todos os tempos. ‘A Divina Comédia’, assim que entra em circulação, em italiano, ao contrário de outras edições da época impressas em latim, provocou uma forte influência na cultura ocidental, criando profundas representações no imaginário coletivo que reverberam até os dias de hoje”, contextualiza Rodriguez.

Extremamente interessado no rico teor de simbolismo presente nos versos escritos por Dante, Dalí, de acordo com ela, viu naquela oportunidade um desafio de se colocar à prova no segmento em que atuava. Ao verter para as telas curiosas imagens sugeridas pelas descrições do escritor, ele buscou experimentar os limites dos estilos que desenvolvia.

“Diante de um gênio da literatura, Dalí se viu provocado a percorrer aquela história que atravessa diferentes mundos e aproveitou isso para rever a sua própria trajetória. Ao fazer isso, ele acabou se revelando outro artista de igual valor e muito consciente do seu papel. Ele parece profundamente embebido por aqueles cenários, com os tormentos vividos pelos indivíduos nos círculos do inferno, pois eles são absolutamente visuais, lembrando inclusive, às vezes, a linguagem cinematográfica”, pontua ela.

O resultado desse diálogo entre a literatura e as artes plásticas, ao seu ver, se mostra vitorioso justamente porque as criações de Dalí não se dobram totalmente às sugestões do texto.

“Ele recriou, a partir da sua interpretação, a viagem de Dante, concebendo 34 telas para o momento em que o poeta passeia pela inferno, outras 33 para a etapa do purgatório e mais 33 quando ele chega ao paraíso. Embora todos esses temas sejam baseados na conteúdo literário, Dalí imprime a sua própria poética. É muito interessante perceber que, naquele conjunto, o pintor não se subordina ao mero papel de ilustrador. Toda a obra de Dante deve ser entendida como um ponto de partida para que ele pudesse desenvolver o seu próprio imaginário”, ressalta Rodriguez.

Ao longo da mostra, a potencialidade criativa de Dalí se revela nas diferentes qualidades da sua pintura. À medida que ele avança nos meandros dessa história, o artista se desloca do surrealismo a outros momentos de seu trabalho marcados por uma veia mais mística e espiritual, por exemplo.

“Ele cria essa coleção num momento de maturidade artística. Ao meu ver, ele não só cria representações a partir do livro de Dante, como também ilustra a sua própria carreira como pintor. Na parte do inferno, aparece com muito mais força a sua perspectiva surrealista, com toda aquela simbologia ‘dalineana’. Já quando retrata o percurso de Dante pelo paraíso, os seus traços mudam, sugerindo uma espécie de reconciliação consigo mesmo, uma espécie de busca por espiritualidade refletida em outras formas e contornos”, acrescenta a curadora.

Agenda

O quê. “Dalí – A Divina Comédia”

Quando. De hoje a 17/8; de 4ª a dom., das 9h às 19h

Onde. Academia Mineira de Letras (rua da Bahia, 1466, centro)

Quanto. Entrada franca

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