No caminho do Jorge

iG Minas Gerais |

Karol e Jorge nunca se conheceram pessoalmente. Mas, com certeza, ele fez o dia dela terminar melhor. Um gesto simples de honestidade numa cidade onde quase todo mundo quer tirar vantagem de tudo pode, sim, fazer a gente acreditar que as pessoas valem a pena. Naquele dia, Jorge não agiu sozinho. O tratamento e a ação de policiais da Rotam também foram fundamentais para “salvar” o dia, o humor e o bolso da Karol. Mais do que profissionais, sargento Kennedy e os soldados Thales Mendes e Brocanelli foram dedicados no ato de, simplesmente, ajudar.  Era mais um dia normal, e seguíamos para o trabalho. Mas estar na companhia de uma amiga como a Karol pode tornar algo comum uma aventura. É que ela passou na fila do “com emoção” várias vezes. Jovem, intensa, criativa e um pouco estabanada, a moça que sorri com os olhos tem sempre boas histórias para contar. Algumas envolvem esquecimentos e perdas de objetos pessoais. É sem querer, mas acontece.  Naquele dia foi o acaso. O último modelo de iPhone (desses que só faltam falar) estava no colo da Karol dentro do carro. No meio do trajeto, paramos para comprar um presente, e o aparelho caiu sem que ela percebesse de imediato. O lugar: a movimentada rua Padre Eustáquio. Quando deu falta, pouco tempo depois, o telefone não estava em lugar nenhum. Acionou, então, a tecnologia. A marca tem um aplicativo que permite o rastreamento do aparelho. De repente, a Karol descobriu que o seu celular já estava na avenida Abílio Machado e continuava “se deslocando”. Sensação de impotência. A impressão naquele momento era a de que tudo estava perdido, já que ninguém atendia as ligações feitas do meu telefone para o dela. Num primeiro momento, deduzimos que algum “espertinho” o achou no chão e, obviamente, o levou para tirar vantagem. E como não pensar nisso nos dias de hoje? Dedução errada, já que ainda não conhecíamos o Jorge.  Mas, antes dele, no nosso caminho, encontramos anjos. Atendem por sargento Kennedy e soldados Thales Mendes e Brocanelli, do Batalhão Rotam. Eles faziam a ronda próximo a um banco já no final da Padre Eustáquio. Pararam para ouvir o clamor da Karol. Mais que isso, agiram. Não era um roubo. Era um extravio, e, ainda assim, foram prestativos e dedicados. Em suas motocicletas, seguiram o sinal do aparelho, que, naquela altura, já estava na Lagoinha. A postura do sargento e de sua equipe me encheu de esperança. Isso porque, no ano passado, tinha chamado a polícia pelo 190 para um acidente e esperei simplesmente oito horas. Foram muitas ligações, mas ninguém apareceu. Na época, a única viatura que passou pelo local se recusou a nos ajudar. Já tinha outro destino. Agora foi diferente. Deu gosto de ver a disposição do sargento Kennedy mesmo a 120 dias da sua aposentadoria.  O telefone da Karol foi entregue ao sargento pelo gerente de uma gráfica na Lagoinha. E é aí que entra o Jorge. Foi ele quem “salvou” o celular e pediu que o seu chefe achasse o dono. Só que a polícia chegou antes disso. Jorge Gomes tem 43 anos, é motoboy e natural de Amparo da Serra. Falamos com ele, pelo telefone, para agradecer. Encontrou o aparelho no meio da rua. Karol deu sorte de nenhum carro passar por cima da “maquininha”. Jorge viu e voltou para pegar. Continuou suas entregas antes de deixá-lo na gráfica. Não é a primeira coisa que ele acha na rua. Já encontrou a carteira de um médico, com mais de R$ 1.000, documentos, cartões e talão de cheque. Devolveu ao dono. Jorge faz bicos de entregas noturnas para aumentar a renda. O que não é dele, não é dele. Simples assim. Das suas contas, ele corre atrás. Que bom que ainda existam Jorges, Kennedys e pessoas de bem de quem a gente pode se orgulhar. 

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