Para montar um bolo

iG Minas Gerais |

O mundo do trabalho precisa andar a passos mais largos, e a visão que a sociedade tem sobre a mão de obra também necessita ser revista. Apesar de ser assunto muito discutido no último século, a relação trabalho e capital ainda é um nó. A visita do presidente chinês Xi Jinping ao Brasil coloca uma máxima na pauta da discussão. Já virou verdade a história de que a mão de obra na China é muito barata – quase escrava. Essa seria a explicação para o baixo custo dos produtos chineses, que são espalhados por todo o mundo a preços sem concorrência. Obviamente, uma boa parte dessa história deve ser verdade mesmo. Não gratuitamente, fabricantes de vários produtos e de todos os lugares do mundo estão escolhendo a China como o lugar para instalar suas fábricas. Mas a pergunta que se faz é: Somente o baixo custo da mão de obra é o responsável por tornar a China tão competitiva? Certamente, a resposta é não. A China, apesar do seu sistema político, aprendeu a reconhecer mercados e negociar com os outros países de uma forma menos autoritária do que, normalmente, fazem os Estados Unidos e a Europa. O país asiático, até pelo tamanho de sua população, decidiu não economizar nas importações e, assim, garantiu que seus parceiros se tornassem também grandes consumidores. E aí vale qualquer produto, o importante é fazer o mundo girar. A China compra minério de ferro do Brasil e produz aço para vender a uma montadora multinacional lá instada, que vai produzir e fornecer carros para o mundo todo, inclusive o Brasil. E assim vai. Todo mundo tem direito a uma fatia pequena que seja. Quem conseguir juntar mais fatias, que monte seu bolo. A China montou o seu. Pensando dessa forma, os países em desenvolvimento pretendem agora criar um banco de fomento. A iniciativa, anunciada recentemente, recebe críticas e elogios ao mesmo tempo. Há quem diga que é uma tentativa louvável desse grupo de nações para se livrar das imposições do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, portanto, é uma boa alternativa. Mas há também quem diga que a iniciativa tem caráter separatista e, em longo prazo, pode ter consequências maléficas até mesmo para o grupo que a concebeu. Mas, independentemente do lado da análise, é preciso entender que esses países estão criando uma via de desenvolvimento e cooperação mútua que não enxerga a relação entre capital e trabalho apenas como uma forma de garantir lucro. É uma visão que entende a economia como uma ciência que deve contribuir para a melhoria da qualidade de vida do ser humano a partir de uma nova maneira de distribuir renda. Deslocando o eixo central do interesse econômico, entendendo o mundo do trabalho como capaz de consumo, surge uma nova lógica. Acertada? Talvez. Ousada? Certamente.

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