Jogadores de futebol precisam, além de psicologia, de mística

iG Minas Gerais |

DUKE
undefined

Foi uma ideia construtiva da CBF e do grupo técnico da seleção de futebol brasileira terem convocado uma psicóloga experiente na área, Regina Brandão, para acompanhar os jogadores nos seus jogos. A incorporação do acompanhamento psicológico já existe há anos na seleção alemã. Mas estimo que isso ainda não é suficiente. A psicologia pode ser enriquecida com a mística. Precisamos, antes de mais nada, desmistificar a mística. Ela tem muitos significados, sendo que dois são principais: o sentido sociológico e o sentido espiritual, mas não confessional. Cada grande reunião do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), com centenas de pessoas, sempre se inicia com uma “mística”. Que ocorre aí? Teatralizam-se os problemas vividos pelos participantes, criam-se símbolos significativos, entoam-se canções, ouvem-se testemunhos de luta e de vida. Nem sempre se fala de Deus. O que irrompe é um sentido de vida, um reforço na vontade de levar avante os projetos, de resistir, de denunciar e de criar coisas novas. O efeito final é o entusiasmo geral, leveza de espírito, congraçamento de todos. Por essas “celebrações”, toca-se a dimensão mais profunda do ser humano. Esse é o sentido sociológico de mística. Ele se encontra referido na famosa palestra de Max Weber aos estudantes de Munique em 1919 sobre a política como vocação. Para ele, uma política digna desse nome (não o viver da política, mas o viver para a política) implica uma mística, caso contrário, se atola no pântano dos interesses individuais ou corporativos. Mística para Max Weber significa o conjunto das convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam pessoas e movimentos. Pois esse tipo de mística pode e deve ser vivido pelos jogadores de futebol. Vejam que não se trata apenas de psicologia com suas motivações. Trata-se de valores, de sonhos, de entusiasmo. A questão é: como chegar a isso? Aqui vem o segundo sentido de mística, o espiritual. O futebol treina todas as virtualidades possíveis do corpo para criar o atleta e o craque. Mas não basta. Temos o nosso interior, a psiquê, habitado por paixões, ódios, arquétipos profundos, a dimensão de luz e a de sombra. Tarefa de cada um é domesticar os demônios e potenciar os anjos. Mas temos também o profundo, o lado espiritual, onde encontramos as indagações inescapáveis que nos acompanham ao largo da vida. Quem sou eu? Que faço neste mundo? Que posso esperar para além desta vida? Qual o sentido de jogar na Copa? Todas as coisas são interdependentes entre si e se entreajudam para viver. Tem que haver um elo que liga e religa todas elas. Aí tem sua fonte o entusiasmo, que em grego significa “ter um deus dentro”. Sem entusiasmo, nos acercamos do mundo da morte. Sempre que se abordam questões fundamentais da vida, quando se pergunta pela energia poderosa e amorosa que tudo sustenta, há uma aceleração da zona dos neurônios maior que a normal. Somos dotados de um órgão interior pelo qual captamos aquilo que foi chamado de “Deus”, a experiência de uma totalidade na qual estamos inseridos. Ativar o “ponto Deus” nos torna mais sensíveis aos outros, mais cuidadosos, mais amigos, compreensivos e corajosos. Creio que a um jogador faria bem, antes de começar os treinos ou um jogo, retirar-se num canto, concentrar-se e escutar esse eu profundo onde nascem as boas ideias e se fortalece o “entusiasmo”. Há pessoas como frei Betto, dom Marcelo Barros e outros que fariam magistralmente esse trabalho. Eles colocariam os jogadores afinados com o “ponto Deus” e dispensariam a magia do “Tóis”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave