Festa acabada, músicos a pé

iG Minas Gerais |

Uma agradável distração da minha infância foi a de colecionar provérbios. Anotava os que ouvia ou lia numa caderneta e procurava memorizá-los. Meu pai foi introdutor e incentivador do hábito. Impressionava-me a facilidade de decorar os que lhe eram novidades. O registro era a própria memória, que muito lhe aprazia manter desperta e viva. A vida, entretanto, não lhe respeitou o talento recebido e desenvolvido. Mais para o fim dos seus dias, sobreveio-lhe grave doença neurológica, que lhe arruinou a capacidade de reter ou conservar o que amealhara. Coisas recentes, nem sabia. Antes de morrer, o acervo que zelosamente recolheu e confiou à guarda do cérebro foi deixado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do seu cadáver”, sem que jamais pensasse em dedicar-lhe o tesouro “como saudosa lembrança”. Afinal, não escreveu memórias nem deixou qualquer despedida, pelo menos escrita. Era um otimista, como o personagem de Fernando Sabino, que retrataria o velho pai como o seu Marciano de “O Encontro Marcado”. “Uma de menos”, que, referência a uma barba a menos para fazer, decerto determinava o esgotamento e respectiva baixa de mais um dia na escala inexorável da vida de cada um de nós. Mas meu pai e seu Marciano nem pensavam nessas filosofias de botequim. Nunca entraram no jogo de soma zero, que nada adiciona, tudo só passa neste mundo. No dia em que meu pai me transmitiu o provérbio que encima este artigo, não lhe entendi bem o significado. O que queria dizer com essa história de músicos que voltam a pé? Teriam tocado mal? E se tivesse sido o contrário – a festa, um estrondo –, especialmente pelo desempenho animado, entusiasmante mesmo, da orquestra apalavrada? Não seria uma injustiça? Recebidos com palmas, os instrumentistas saíam, um a um, do ônibus alugado, novo, limpo e confortável. Por que mandar o pessoal de volta, certamente cansado e maldormido, para enfrentar o caminho de volta, quem sabe longo, a pé? Uma perfídia. Se tivessem tocado mal, comprometendo o baile, a alegria, o encanto dançante dos presentes, ainda se compreenderia. Mas, assim, sem explicação? Questionei meu pai, ele só me disse: “Calma, meu filho, a vida te dirá; não te fies demais no êxito projetado; nele há sempre uma gota da barba de Caim”, encerrou, misteriosa e machadianamente. O que ficou dito bem serviria se aplicado para entender o vexame recente da “Copa das Copas”, organizada, sob a experiente supervisão burocrática (não tenho notícia de que, em seus caprichados currículos meticulosamente arranjados pelo marqueteiro maior da Corte, naquela Brasília cintilante e apodrecida) da supergerente e “nossa guia”, a qual, até onde se sabe, não pode ser considerada uma aficionada do futebol. Contudo, se a chefe do Estado gosta ou não do esporte, nada importa. Marqueteiro é para isso: desfigurar o produto, conforme o interesse que o contrata. Resultado final: o cavalheiro Felipão e sua vitoriosa e invejável seleção ficaram a pé. E o povo?

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