Ar seco pode ter sido estopim

Auditor explica que baixa umidade acumula energia estática, causando faíscas

iG Minas Gerais | aline diniz e joana suarez |

Despedida. Duas vítimas foram sepultadas na cidade
Uarlen Valério
Despedida. Duas vítimas foram sepultadas na cidade

Santo Antônio do Monte. A baixa umidade do ar pode ter contribuído para a explosão que matou quatro mulheres, na última terça-feira, em Santo Antônio do Monte, na região Centro-Oeste de Minas. A informação é do chefe da seção da saúde e segurança do trabalho da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Minas Gerais (SRTE-MG), Francisco Reis, que vem fiscalizando o setor na cidade dos foguetes há cerca de 15 anos. Segundo ele, explosões não acontecem de uma hora para outra, mas sim como consequência de uma série de erros. No caso do município, uma cultura de desrespeito às regras de segurança em prol do aumento da produção e, assim, de remuneração, seria um ingrediente importante nessas tragédias, que, desde 2011, já deixaram 12 mortos.  

Conforme Francisco Reis, no dia da explosão, a umidade do ar estava muito baixa, em torno de 40%. “Isso faz com que se acumule energia estática e aumente a possibilidade de ocorrer uma fagulha, que, em um lugar cheio de explosivos, vai pegar fogo. Quanto mais seco o lugar, maior a chance de haver faíscas”, explicou. Ele frisa, no entanto, que esse era um fator que poderia ter sido amenizado se a empresa e os funcionários tivessem tomado as precauções necessárias.

Segundo o chefe do SRTE-MG, é de conhecimento de todos na fabricação de fogos que, em casos de baixa umidade, é preciso parar a atividade. “Também há medidas que podem ser tomadas, como molhar o local, colocar vasilhas de água. Como não existe um responsável por isso, ninguém se preocupa”, completou. Os auditores do SRTE estão fazendo um laudo técnico para, provavelmente, elaborar um termo de interdição de um setor da fábrica e apontar o que deve ser modificado. “Com certeza, algo provocou a fagulha, e é difícil de apurar até porque o local foi todo destruído”.

Trabalho. A tragédia traz à tona a falta de opções e de condições de trabalho na cidade. Funcionários relatam que, como recebem por produção, acabam correndo com o serviço, abandonando medidas de segurança. A remuneração oficial é de cerca de um salário mínimo, mas pode chegar a R$ 1.400, dependendo da produção. Um exemplo de descumprimento de regras de segurança é o estoque de explosivos nos barracões – para não perder tempo em deslocamentos, eles acabam armazenando matéria-prima.

O Sindicato dos Trabalhadores de Fábricas de Fogos de Artifícios (Sindifogos) informou que já vinha denunciando os problemas. “Não conseguimos comprovar essa remuneração a mais (por produção) porque é pago em dinheiro, mas essa seria outra causa. Nesse setor é difícil chegar num nível zero de acidentes, mas é possível minimizar”, destacou Reis.

A SRTE-MG informou, em nota, que a Fogos Globo foi fiscalizada em junho de 2012 e que o intervalo entre vistorias não é menor porque o quadro de funcionários é pequeno para a demanda. Segundo o texto, há uma cultura de desrespeito à fiscalização na cidade.

“Já houve situações em que a fiscalização do Exército encontrou excesso de explosivos em uma empresa no período da tarde, mandou retirar e, no dia seguinte, a fiscalização do Ministério do Trabalho encontrou excesso no mesmo local”, disse o coordenador do Sindicato das Indústrias de Explosivos de Minas (Sindiemg), Américo da Silva.

Depoimentos Delegado responsável pelo caso, Lucélio Santos explicou que ouviu durante toda a manhã o depoimento de Elenilson Gonçalves, funcionário da Fogos Globo que estava no barracão do acidente. O delegado contou que Gonçalves pediu que o conteúdo não fosse revelado e fez mais uma descrição dos fatos. O policial disse ainda que não descarta nenhuma hipótese para o acidente. “Vamos ouvir nessa quarta à tarde uma ou duas pessoas que ele citou”, afirmou. Santos informou que pode pedir novas vistorias e que serão ouvidos na investigação outros funcionários, técnicos e engenheiros.

Fatalidade Coordenador do Sindicato das Indústrias de Explosivos de Minas (Sindiemg), Américo Silva considera que o acidente foi uma fatalidade, mas reiterou que é preciso aguardar a perícia. Ele disse desconhecer a prática de acúmulo de explosivos e que a orientação do sindicato é transportar o mínimo de material possível. Na próxima semana, haverá reunião entre o sindicato e os donos da empresa sobre o acidente. Férias coletivas A Fogos Globo não funcionou nessa quarta e segue fechada nesta quinta. Conforme informações da Polícia Civil, a empresa liberou os trabalhadores nessa quarta para o velório e enterro das vítimas e irá adiantar as férias coletivas, marcadas para agosto. Nenhum representante da Fogos Globo se pronunciou. Procurado, o Exército não informou se a fábrica seria interditada. A prefeitura também não quis se manifestar sobre o assunto.

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