Michael Bay: a era da idiotização

Maior bilheteria do ano até agora, quarto filme é o pior da franquia robótica

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Dinobots. Um robô montado em um dinossauro-robô com uma espada samurai robô, e a idiotização do cinema
Photo credit: Industrial Light
Dinobots. Um robô montado em um dinossauro-robô com uma espada samurai robô, e a idiotização do cinema

Existe um grande problema com “Transformers: A Era da Extinção” (na verdade, existem vários problemas muito grandes, mas este é fatal): o fato de que o protagonista Cade Yeager (Mark Wahlberg), um adulto pai de uma adolescente, coloca a segurança dos robôs do título acima da vida e da integridade da própria filha, Tessa (Nicola Peltz), repetidas vezes durante o longa.

O que pode parecer, e é, um absurdo é possivelmente o longa segurando um espelho para o público-alvo da produção. Trintões e quarentões que passaram a infância brincando com seus Transformers e encontram na cinessérie de Michael Bay uma chance de admitir que robôs e explosões são bem mais legais que criar filho.

Imaturidade ou regressão, o fato de que Yeager se nega a fornecer uma informação quando um agente do governo aponta uma arma para a cabeça da filha, manda que ela roube uma farmácia (depois de ter deixado a casa da família explodir) e a obrigue a atravessar o vão entre o topo de dois arranha-céus em um cabo de aço não simplesmente torna impossível se importar com o fator humano da produção. Ele prova que qualquer história que os espectadores inventavam durante as brincadeiras na infância – qualquer fala absurdamente ridícula e sem sentido, seguida de um chute com efeito sonoro do tipo “ziunnnn... pá!” – é melhor do que o roteiro de “Transformers: A Era da Extinção”.

Meu trabalho é enxergar o tipo de problema acima. E o seu é dizer que não se importa com a história, mas sim com robôs se digladiando e fazendo mais barulho e estrago que sua pipoca amanteigada. Mas a verdade é que, em “Transformers”, os robôs são tratados como mero alívio cômico. Eles – assim como Lucas, melhor amigo de Yeager – representam o senso de humor de Bay. O que significa que, cada vez que eles abrem a boca, Deus chora uma lágrima pelo cinema.

Ok, ok. Ignoremos o diálogo. O que interessa é a ação. O grande atrativo de “A Era da Extinção” é a primeira aparição dos dinobots, leia-se transformers-dinossauros. E até isso Bay consegue estragar. A absoluta falta de foco do roteiro sobre qual história ele quer contar resulta em uma trama de quase três horas (um forte indício de que Deus não existe). E os dinobots só surgem lá pelas duas horas e meia de filme.

Quando isso finalmente aconteceu e, em vez de se juntar a eles contra os Decepticons, os Autobots começaram a discutir e brigar entre si, o casal ao meu lado na pré-estreia se levantou e foi embora. Porque eles tinham coisa melhor para fazer. Como, por exemplo, um tratamento de canal, uma depilação com cera quente ou assistir ao VT de Brasil x Alemanha.

A falta de ritmo e emoções de um longa com cenas de ação e um foco narrativo tão dispersos, e uma direção de atores tão fraca quanto a de Bay, é normalmente disfarçada pela trilha sonora. Mas o gosto musical do diretor é como seu senso de humor: um encontro de “Top Gun” e “Malhação” com a classe de um clipe do Bon Jovi.

Some-se a isso uma enxurrada de merchandising e um roteiro cheio de furos. Os cientistas mapearam o genoma da matéria-prima dos Transformers, mas não são capazes de sintetizá-la. Um laboratório militar de ponta é mais fácil de invadir que uma escola primária.

E, coroando tudo, um discurso ofensivamente machista. Tessa pode ser mais madura que o pai, mas se acovarda e grita diante de qualquer ameaça. Porque ela é uma personagem feminina em um filme de Michael Bay: um retrocesso dos anos de esforço de Sigourney Weaver e Angelina Jolie que está ali para permanecer maquiada e sexy mesmo depois de uma hecatombe nuclear. O cineasta substitui o racismo de “Transformers 2” por um sexismo igualmente retrógrado e realiza um filme ainda pior. E o fato de que existe algo pior que “Transformers 2” é motivo para acreditar que os Decepticons deviam vencer: a humanidade não tem salvação.

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