A homenagem foi censurada

Centro de Pesquisas Teatrais completa 40 anos e apresentaria texto inédito, “Beijo na Boca”, de Ronaldo Boschi

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

O fundador do CPT, Ronaldo Boschi, (à direita) em ação
HAMILTON FLÔRES/DIVULGAÇÃO
O fundador do CPT, Ronaldo Boschi, (à direita) em ação

“É um tempo de guerra, é um tempo sem sol”, assim cantava Maria Bethânia, em 1965. Se a música parecia propícia pelo contexto histórico (ditadura militar desde 1964), ela poderia soar nostálgica a quem a ouve em tempos de democracia consolidada no Brasil, certo? Errado. Em pleno 2014, o espetáculo “Beijo na Boca” – montagem do Centro de Pesquisas Teatrais (CPT) – precisou ser cancelado por sua temática.

Coincidência ou não, a peça traz uma relação amorosa entre duas mulheres que se beijam, no fim da peça. “Um pai de uma aluna, menor de idade, me disse que a filha estava incomodada com seu papel. A menina aparecia de roupa íntima por cima de um collant. Ela não ficava nua. Não tem pornografia na peça”, diz Roberta Luchini Boschi, diretora da peça e do CPT.

A aluna incomodada não interpretava nenhuma das duas mulheres que se beijam. “Resolvemos mudar algumas coisas. O beijo, inclusive! E outras cenas também. Ainda assim, ele escreveu um email para o Sesi, dizendo que se a peça acontecesse, o juizado de menores estaria presente. O Sesi, então, resolveu cancelar”, revela Roberta.

A reportagem tentou uma explicação da direção do teatro Sesiminas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. “É uma decisão do jurídico da Fiemg”, afirmou uma funcionária do Sesi, que prefere não se identificar.

O “timing” não poderia ser pior. A montagem de “Beijo na Boca”, um texto inédito de Ronaldo Boschi, diretor de teatro e fundador do CPT, com direção de Roberta, filha de Boschi, era o ápice da comemoração dos 40 anos da escola Centro.

Falecido em 2013, Boschi foi responsável pelo primeiro curso de teatro livre na cidade. Por lá, passaram muitas pessoas que seguiriam carreira artística. Desde 1974, o CPT produz espetáculos amadores em profusão. “Depende da procura, mas já tivemos 20 montagens em um ano. Eu digo que a gente não faz teatro, faz milagre! Embora, sejam atores amadores, nos esforçamos para dar a eles uma experiência profissional e esperamos deles o mesmo comprometimento”, diz Roberta.

A ironia da nova proibição é que o próprio Boschi era atuante em tempos de ditadura militar e conviveu com a censores. “Eu me pego pensando em ser censurada em 2014. Eu jamais faria alguém se sentir mal. Mas é preciso pensar que o teatro é um espaço para se discutir, para se abordar assuntos e enxergar outras realidades”, finaliza Roberta.

Homenagens. O CPT ainda fará suas comemorações hoje no mesmo local. Serão apresentados trechos de “Maior Incomunicabilidade”, texto de 1969, além de uma exposição do acervo da escola, com curadoria de Éster Mourão.

Agenda O quê. 40 anos de CPT

Quando. Hoje, às 20h

Onde. Teatro Sesiminas (rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia)

Quanto. Entrada franca

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