Querida amiga Argentina

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Soube que alguns dos seus filhos foram atacados, no Rio de Janeiro, no último domingo, só por estar com a “albiceleste”. Desculpa, mas não foi nada pessoal. Aqui, entre nós mesmos, somos capazes de matar só por vestirmos camisas de cores diferentes. Aí também, né?  Como se vê, há babacas de todas as nacionalidades e escudos. Sei que, pelos eventos do último domingo, dá a impressão de que os brasileiros somos inferiores aos argentinos. Afinal, onde já se viu torcer pelo seu algoz, que o fez passar pela maior goleada e vexame de sua história? Como pode querer que a taça vá para a Europa, e não fique na América Latina? Por que não impedir, mais uma vez, que um europeu ganhe o Mundial em solo sul-americano? Onde está o seu sentimento latino-americano? Não, as coisas não funcionam assim. Primeiro, o brasileiro não está sofrendo da síndrome de Estocolmo porque não vê a Alemanha como seu algoz. Os brasileiros acreditam que, muito mais que Alemanha, quem nos nocauteou foi a própria seleção brasileira, técnica e psicologicamente, com seu péssimo futebol e sua frágil estrutura emocional. Nenhuma mágoa, portanto, dos alemães. Segundo, o brasileiro não pensa em sentimento latino-americano, pelo menos no que se refere à Argentina. Nos estádios, até havia uma torcida pelo continente, mas gritavam: “América Latina, menos Argentina!” E a recíproca é verdadeira. Quem há de negar? Se a final da Copa fosse entre Alemanha e Brasil, a grande maioria dos argentinos torceria pelo país de Goethe, ou não? Foi assim no Mundial de 2002, quando, numa mera partida entre Brasil e Inglaterra, uma pesquisa revelou que 51% dos argentinos torceriam para seus vizinhos contra acachapantes 49% que preferiam a vitória dos – esses sim, se não algozes – inimigos históricos. Foi por pouco. Não precisamos ir tão longe. O que fizeram alguns argentinos quando ainda sofríamos pela goleada de 7 a 1, em plena Copacabana? Se solidarizaram? Não. Queimaram nossa bandeira. Me diz, o que seria mais digno: torcer por quem nos derrubou em campo ou por quem nos desrespeita fora dele? Por quem nos meteu 7 gols ou para que nos chama de macaquitos?  Não existe sentimento latino-americano em nenhum dos lados, quando o assunto é futebol. É nessa lógica que o brasileiro pensa: se, com apenas duas Copas, os argentinos criam uma musiquinha que nos lembra a malfadada Copa de 1990, quando a albiceleste ficou em segundo, o que fariam se ganhassem o Caneco em solo tupiniquim?    Nunca mais teríamos paz, têm a certeza os brasileiros. Para a maioria, torcer para a Argentina é o mesmo que um atleticano vestir a camisa de um cruzeirense, um palmeirense gritar “timão, ê, ô, timão ê, ô”, um gremista cantar o hino do Inter. Assim como torcer para o Brasil aí deve ser o mesmo que um fanático pelo Boca Juniors querer ver a vitória do River Plate e vice-versa. Compreendes? Ainda assim, sou capaz de apostar que há mais brasileiros que torcem para a seleção argentina do que argentinos que torçam pela seleção brasileira. Então, não se avexe com o que viu no domingo. Essa demonstração pouco amigável da maioria – e vergonhosa de uma minoria – entre brasileiros e argentinos se acirra mais de quatro em quatro anos. E essa rivalidade é de mão dupla, não se engane.  No resto do tempo, o que se vê é a paixão que os brasileiros nutrem pela mais europeia das capitais latino-americanas, suas livrarias, seus cafés, Borges, Cortázar... É a admiração dos argentinos pelo jeito de ser dos brasileiros, suas praias, sua música, Tom Jobim, Paralamas... É isso o que importa. No mais, que prevaleçam a rixa de troca de musiquinhas criativas e até simpáticas, as provocações saudáveis, os sarros amigáveis, tudo o que faz os estádios ficarem mais alegres e vibrantes. Já existe ódio demais no mundo, conflitos que parecem insolúveis. Não precisamos de mais.

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