Museu foca o mórbido e quer repensar relação com a morte

Recém-inaugurada, instituição expõe itens e reúne coleções particulares que tratam do tema

iG Minas Gerais | Jennifer Schuessler |

Vanguarda. Joanna Ebenstein, diretora criativa do Museu de Anatomia Mórbida, quer chamar atenção para o que é obscuro
Tony Cenicola/The New York Times
Vanguarda. Joanna Ebenstein, diretora criativa do Museu de Anatomia Mórbida, quer chamar atenção para o que é obscuro

Nova York, EUA. A maioria das pessoas não presta muita atenção à morte até que ela, gentilmente (ou nem tanto), imponha sua presença. Mas agora o novo Museu de Anatomia Mórbida foi inaugurado no Brooklyn, em Nova York, nos Estados Unidos, com uma entusiasmada festa de boas-vindas ao Anjo da Morte.

A festa de inauguração contou com uma fita cortada em frente à estilosa fachada preta, uma “cabine fotográfica dos espíritos” e alimentos tradicionalmente associados ao luto, preparados a partir de um livro de receitas chamado “Death Warmed Over” (“Morte Requentada”, em tradução livre). Mas a missão do museu em um sentido mais amplo – apresentar aspectos da cultura que normalmente ignoramos por serem mórbidos ou marginais – é profundamente (se não mortalmente) séria, disse recentemente Joanna Ebenstein, diretora criativa e alma por trás do museu. “Quero que as pessoas entrem no museu e digam: ‘Uau! Isso é muito interessante! Por que não sabíamos disso? E o que isso nos mostra a respeito de nós mesmos?’”, disse ela. O museu sem fins lucrativos evoluiu a partir da Biblioteca de Anatomia Mórbida, coleção particular de Ebenstein que inclui mais de 2.000 livros sobre história da medicina, rituais fúnebres, corpo humano e esoterismo, que até recentemente localizava-se em uma sala minúscula escondida em um beco. Nesse espaço modesto, as atividades ligadas à Biblioteca de Anatomia Mórbida tomaram a forma de uma série de palestras regulares que reuniam artistas, escritores, curadores e amadores apaixonados, dedicados ao que ela resume como “aquelas coisas fugidias”. Agora, a marca Anatomia Mórbida – que inclui um blog popular e uma antologia que acaba de ser publicada – está se tornando cada vez mais conhecida, ocupando uma nova e elegante casa de três andares. O edifício reformado conta com uma biblioteca, um espaço para palestras, uma galeria para exposições temporárias e um café no piso térreo, que podem atrair desavisados sem interesse prévio em taxidermia vitoriana ou modelos anatômicos do Renascimento. Mas, embora o público possa mudar, a missão – com destaque para o que é obscuro, esquecido e estranhamente belo – não mudou. Esses adjetivos se aplicam à primeira exposição do museu, “A Arte do Luto”, que apresenta mais de 90 objetos – fotografias, penteados vitorianos, louças, máscaras mortuárias – que possivelmente passaram por salões respeitáveis, exibidos em um estilo que une galerias de arte convencionais (paredes brancas, notas explicativas) ao espírito dos antigos museus de curiosidades.

Karen Bachmann: a artista que gosta de brincar com o mórbido Nova York. A desordenada sala de estar de Karen Bachmann, no Brooklyn, se parece com a de qualquer outra família com crianças pequenas – até você perceber os ossos de um pé humano em uma das paredes. “Eu costumava usá-lo no cabelo quando fazia escola de arte”, explicou Bachmann. “Fazia um coque e usava o pé como se fosse um grampo”. Bachmann, joalheira independente que dá aulas no Fashion Institute of Technology e no Instituto Pratt, não usa mais o pé, mas ainda faz coisas heterodoxas com o cabelo. Ela é especialista em obras feitas com cabelo, uma arte doméstica popular no século XIX que praticamente desapareceu na década de 20. Bachmann já fez colares de corações de galinha e esculturas com órgãos de animais em sacos plásticos apertados com espartilhos.

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