A associação dos canalhas

iG Minas Gerais |

Nossas timelines andam entupidas de associações mal-intencionadas entre futebol e eleição. São postagens com declarações, vídeos, teorias conspiratórias e pseudoinformações com pedigree de esgoto. Todas, sim, mal-intencionadas. A profusão já vinha de antes, mas foi acelerada pelo vexame do 7 a 1 para a Alemanha, que nós, mineiros, tivemos a desonra de sediar. Associar o desempenho da seleção à organização da Copa do Mundo já seria um quiproquó sem-vergonha. Agora, ver na melancolia do time de Felipão correlação com uma suposta incompetência de Dilma na Presidência, aí é canalhice mesmo. Houve candidato da oposição e analista tido como sério que prestaram esse desserviço depois daquele atropelamento de Mercedes no Mineirão. Rede social é terra de ninguém, está certo, coisas são publicadas e replicadas sem que se desperte, nem de longe, a precaução sobre a veracidade do conteúdo. Por isso, nossas timelines viraram um menu de irracionalidades extremas com dimensões enciclopédicas. Existe esse cara, que compartilha irresponsavelmente as coisas que melhor lhe apetecem, como caixa de fósforos nas mãos de piromaníaco. E existe o outro, que cria ou posta as mensagens com falsa convicção ou consciência plena da bagunça que pretende gerar. É esse tipo o canalha da política. São duas confusões nas quais estamos metidos. A primeira é entre nação e seleção brasileira. Nas eras de Pelé e Nelson Rodrigues, o “scratch” era o símbolo maior da tal “pátria de chuteiras”. Como no 21 de Abril, quando a capital é transferida para Ouro Preto, seria a noção de que, na Copa, o Brasil se restringisse a 11 homens de amarelo cercados por uma torcida apaixonada. Pois teve imbecil queimando a bandeira do Brasil na terça-feira passada. Queimasse a camisa da Nike, de R$ 250, com o brasão da CBF, uma empresa privada que, como tal, convoca uma comissão técnica e 23 atletas de acordo com seus interesses comerciais. Outra confusão é a que paira sobre essas reflexões. Prezado leitor/eleitor, esse pessoal que trata partido como time de futebol e militância como torcida organizada só nos quer fazer de trouxas. Só busca nos deixar confusos, compartilhando valores ideológicos e visões fabricadas de sociedade que nem mesmo eles carregam. Enquanto vermelhos contra azuis contra amarelos contra vermelhos mantiverem esse ciclo de animosidade digna de clubes rivais, melhor será para eles: as agremiações conquistam torcedores fiéis que compram essas associações bobas de que uma derrota no esporte, ainda que a mais humilhante, é a persona das mazelas nacionais. Por outro lado, discussões sobre políticas públicas, desenvolvimento e redução da desigualdade são jogadas para escanteio. Daí não percebermos, atrás dessa nuvem de bobagens, que vermelhos, azuis, amarelos, verdes etc. se igualam por baixo no quesito do debate edificante. E tem mais: em outubro, essa Copa já terá virado história, e o 7 a 1, só um retrato na parede. Mas como dói...

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