Conflito de versões em sessão

Julgamento de seis militares acusados de morte de comerciantes há dez anos começou nesta segunda

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Apreensão. Segundo familiares da vítima, clima é tenso no julgamento, já que jurados e réus são da mesma cidade
Uarlen Valério
Apreensão. Segundo familiares da vítima, clima é tenso no julgamento, já que jurados e réus são da mesma cidade

Dez anos após a operação policial que resultou na morte da comerciante Ana Paula Nápolis Silva, 28, na rodovia MG–010, no bairro Morro Alto, em Vespasiano, na região metropolitana da capital, teve início nesta segunda o júri popular dos seis militares acusados do crime. Ao todo, 11 testemunhas foram ouvidas no fórum da cidade. Outras três devem prestar depoimento nesta terça, a partir das 8h45. Segundo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), a previsão é que o julgamento termine nesta quarta.

As testemunhas ouvidas estavam presentes no dia do crime e relataram suas versões sobre o ocorrido. A promotora Marina Kattah deve ouvir ao todo 13 pessoas. Já os advogados de defesa dos réus escalaram 33 testemunhas, mas optaram por ouvir apenas uma, um ex-perito da Polícia Civil contratado especialmente para analisar o caso. No primeiro dia, prevaleceu o conflito de versões entre as testemunhas. Um dos criminosos perseguidos pelos militares negou que o trio estivesse armado. Já uma das pessoas que presenciaram o cerco e um policial militar teriam visto os assaltantes com armas. Outras sete não souberam dizer se o grupo disparou ou não tiros. Segundo um dos advogados de defesa, Ernani Pedro do Couto, a perícia realizada na época descartou pelo menos duas linhas de disparos que poderiam ter ocorrido contra as vítimas. Esse laudo complementar será apresentado pelo perito contratado. “A Polícia Civil não conseguiu apurar o verdadeiro autor do crime. Por isso vamos pedir autoria ignorada, já que não é possível saber de qual arma teria saído o disparo”, afirmou. Já o assistente do Ministério Público, Geraldo Guedes, destacou que algumas armas desapareceram após a operação. “A gente sabe do corporativismo da Polícia Militar. Desde o início, um ajudou o outro, mas nós sabemos quem atirou. Inclusive, o comando da polícia ficou indignado com a postura desastrosa deles”, afirmou. Ameaças. O pai de Ana Paula, o aposentado José Adílson da Silva, 66, destacou que há um clima de pressão psicológica e que pessoas ligadas à família teriam inclusive recebido ameaças para não ir ao julgamento. “A família está apreensiva e acuada. A gente tem medo de sair e não quer se expor, porque há muita controvérsia do que pode acontecer, já que militares e jurados são daqui”, disse. Estão sendo acusados por tentativa de homicídio o sargento Marcílio Vieira Junior, os cabos Edson Martins, Claudinei Cassemiro, José Luiz da Silva, Renato Losha e o soldado Robson Leonardi, à época pertencentes à 6ª Companhia de Vespasiano (atual 36º Batalhão).

Acusação Tipificação. Apesar de ter havido uma morte, os seis policiais estão sendo julgados por tentativa de homicídio, já que não foi possível determinar qual das balas atingiu Ana Paula.

Entenda Perseguição. Em fevereiro de 2004, seis policiais militares abordaram três veículos na MG–010, na altura do bairro Morro Alto, em Vespasiano. Seguindo a ordem dos agentes, eles desceram dos veículos e se esconderam em um matagal. Bloqueio. Os policiais usaram os carros particulares para fazer um bloqueio contra os bandidos que perseguiam. No entanto, ao verem o cerco, os bandidos pararam e tentaram fugir para o mesmo matagal onde estavam as pessoas comuns. Tiroteio. Os policiais teriam disparado várias vezes contra os criminosos, atingindo três ocupantes dos veículos, entre eles, Ana Paula, que morreu.

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