Brasil se despede da Copa em que o futebol superou a desconfiança

No Rio, primeiro dia sem bola rolando teve lapsos do irresoluto orgulho argentino, uma comedida festa alemã e a última 'pelada mista' nas areias de Copacabana

iG Minas Gerais | JOSIAS PEREIRA |

Rio de Janeiro – Chegou a hora de juntar as malas.  A Copa do Mundo no Brasil já deixa saudades. Poucas horas de caminhada por Copacabana foram suficientes para visualizar os contrastes. De um lado, o cansaço dos perdedores. Do outro, a felicidade gélida dos campeões. Um dia após o término da Copa do Mundo, o Rio de Janeiro se despediu de visitantes ilustres, outros nem tão pomposos, mas satisfeitos. Orgulhosos, mesmo após uma derrota tão dolorosa.

“Independentemente do resultado, creio que a Argentina cresceu como equipe. Infelizmente, o título não veio. Mas estamos conformados e bastante orgulhosos por tudo que este time nos proporcionou. A festa na Argentina por ter chegado à final foi algo incrível. Estou feliz por ter vivido este momento”, declarou Hector Bonilla, preparado para encarar, junto com seus outros dez amigos, uma viagem de pelo menos cinco dias para Bolívar, cidade localizada a 400 km de Buenos Aires.

Mas o orgulho também é ferido. Houve quem considerasse a vitória alemã um ultraje, imputado na conta da arbitragem. “Tudo no futebol é movido a dinheiro. Quem tem mais sempre leva. Por que não colocaram um árbitro sul-americano? Um árbitro asiático? Ou um australiano? Foi pênalti claro do Neuer no Higuaín”, esbravejava Luciana Ines, argentina de Pergamino, cidade localizada na província de Buenos Aires.

Para outros tantos, a torcida contra dos brasileiros foi desoladora. Declarações que tentavam manter a frieza argentina, mas que sempre acabavam em provocações desnecessárias. “Nós sempre gostamos do Brasil. Vi inúmeros brasileiros lá na Fan Fest, calados, falando que estavam torcendo para nós. Mas bastou a Alemanha fazer o gol para que todos mostrassem a cara. Vocês tinham que torcer para nós. Somos da América do Sul. Espero que vivam a mesma situação um dia. Duvido que se o Brasil tivesse enfiado sete na Alemanha, ia ter alemão torcendo pela seleção brasileira no jogo seguinte”, afirmou Carlos Calibar, que encarou uma viagem de Buenos Aires ao Rio para, segundo ele, pregar a paz mundial e celebrar a união entre os povos.

Cinco minutos depois, com uma enorme bandeira argentina na praia de Copacabana, o mesmo Carlos puxou a música provocativa que marcou a passagem dos hermanos pelo Brasil.

Se no domingo, as camisas argentinas tomaram as ruas cariocas, na segunda-feira pós-Copa, o rubro-negro alemão (ou do Mengão) marcou presença. Um corre-corre para adquirir as peças na mão dos ambulantes, que chegavam a pedir R$ 90, R$ 75 por uma camisa – de origem bem, mais bem duvidosa – da Alemanha. E se não tinha dos agora tetracampeões mundiais, a camisa do Flamengo estava de bom tamanho. O importante era se sentir parte do clima.

O Rio segue movimentado, com as paisagens deslumbrantes, o barulho das ondas, o pôr-do-sol estonteante, mas também perde um pouco de seu brilho. Um sentimento de nostalgia com as pessoas desfrutando os últimos minutos de um sonho que poderia não ter fim. Nas areias de Copacabana, crianças e marmanjos alemães, argentinos, brasileiros e ingleses batendo bola. Tentando ali, do seu jeito, assumir o papel das estrelas que desfilaram seu talento – ou a falta deles – pelos 30 dias de futebol que colocaram o Brasil sob o olhar do mundo.

“Foi fantástico viver este clima de Copa do Mundo no Brasil. Eu, minha esposa e meus dois filhos fomos coroados com dias incríveis e que bom que o título ficou conosco”, dizia o satisfeito alemão Peter Pap, ou seria o Manuel Neuer da pelada? Foi difícil dar entrevista. A todo o momento, o bravo arqueiro honrava o apelido que recebera de umas três crianças argentinas que estavam ali, no seu time, jogando ao lado de um dos seus filhos.

São nestes momentos que o esporte dá sua maior lição de nobreza. O de que todos somos iguais. Independentemente do resultado, das diferenças ideológicas, das culturas, no campo da vida, todos nós já saímos vencedores. É este o legado que a Copa vai deixar.

“Vocês (brasileiros) estão de parabéns pela Copa que fizeram. Este país é maravilhoso. Acolheu a todos com muito carinho. Não teria melhor lugar no mundo para que eu pudesse desfrutar este momento. No fim, o que importa mesmo é isto aqui, se divertir como criança ‘sem bandeiras’ e ‘sem barreiras’. Afinal de contas, é isto que realmente interessa no futebol”, concluiu Peter Pap.