Com raiva e rebeldia, Morrissey está de volta No 10º álbum da carreira solo, inglês mostra insatisfação completa com o mundo “World Peace Is None of Your Business”

No 10º álbum da carreira solo, inglês mostra insatisfação completa com o mundo

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Capa. Morrissey posa com um cachorro para a capa do novo álbum, que questiona a condição humana
Universal music/divulgação
Capa. Morrissey posa com um cachorro para a capa do novo álbum, que questiona a condição humana

Quando Morrissey disse que “continuaria buscando um ouvinte até que esteja morto em uma vala”, ele não estava de brincadeira. Controverso, melodramático, vaidoso e irredutível, o cantor inglês parece ter apenas começado o terremoto que queria causar com “Autobiography”, lançada no Brasil pela Globo Livros no ano passado, com revelações inéditas e intempestivas da carreira. É nesse contexto que “World Peace Is None of Your Business” (Universal Music) chega às lojas do país amanhã: como uma espécie de complemento da raiva rebelde que ele tem destilado, chamando a atenção por afirmar uma descrença completa no mundo, aliada a lamentos que continuam à flor da pele – a única forma fiel como sua poesia sabe existir.

O próprio título “World Peace Is None of Your Business” (algo como “a paz mundial não é da sua conta”) mostra um Morrissey aos 55 anos mais ranzinza do que nunca, que chega ao 10º álbum solo da carreira colecionando opiniões nem sempre bem assimiladas pelo público nos últimos tempos. Ora irônico, ora feroz, o ex-líder do The Smiths foi ovacionado e massacrado recentemente ao comparar carnívoros a pedófilos e afirmar que o príncipe Harry é um “parasita de subsídio”.

No novo disco, primeiro de inéditas desde “Years of Refisal” (2009), ele polemizou ao ter a atriz Pamela Anderson como protagonista do clipe de “Earth Is The Loneliest Planet”. Bem aquém de uma jogada de marketing para promover o single, Morrissey usou a imagem da modelo/celebridade para ilustrar seu lamento de que “a terra é o planeta mais solitário do mundo”.

E é nessa áurea meio contraditória, repleta de críticas diretas, ainda que muitas delas pareçam mais inocentes do que palpáveis, que o disco se sustenta. Em uma retomada com a Universal Music, que dispensou Morrissey em 2009 por divergências de ideias, “World Peace Is None of Ypur Business” ataca o egoísmo humano o tempo todo, mas se desdobra por outros questionamentos contemporâneos.

“I'am Not a Men” defende o veganismo como princípio de vida (“eu nunca comeria um animal”); depois Morrissey viaja pelo sistema político de países do terceiro mundo na faixa título (“cada vez que você vota / você apoia o processo / Brasil, Barein, Egito / tanta gente em agonia”); e dispersa sem pudor os característicos dramas desesperados de amor em letras quase teatrais, como “Kiss Me a Lot” (“me beije por toda a parte / e então quando você me beijar / me beije mais uma vez”).

O lendário produtor Joe Chiccarelli, que projetou Frank Zappa e trabalhou com Elton John e Strokes, manteve as guitarras e baterias de balada de Morrissey, e introduziu com sutileza as influências de música espanhola do cantor britânico, que são a maior novidade do disco.

Assim, levadas e solos de violões flamencos apimentam canções como “The Bullfighter Dies”, sobre a morte de um toureiro, e “Staircase At The University”, que fala de uma garota que se joga da escadaria da universidade por não conseguir boas notas e expõe a maior marca de Morrissey: transformar o estranho bizarro em lírico.

É por isso que mesmo com mais de 40 shows cancelados no ano passado por problemas de saúde que o cantor prefere preservar, Morrissey mostra que sobrevive bem ao tempo com “World Peace...”, deixando o recado provocador de um cinquentão que não se permite parar: “Vítima ou aventureiro da vida, qual dos dois você é?”

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