Um velho DVD

iG Minas Gerais |

acir galvao
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À procura de outro DVD na estante, resvalo e puxo “Antonio Brasileiro”, de Antonio Carlos Jobim, que há muito não via. Coloco para rodar na manhã de sol de inverno de domingo, com o prazer do reencontro especial com esse brasileiro. Neste momento, com tantas atenções voltadas para o Brasil de pouco mais de um mês para cá, eis aí uma de nossas mais incríveis e lúcidas referências. O DVD lançado em 2008 reproduz o programa “Antonio Brasileiro”, produzido e exibido pela TV Globo em 1987, com direção geral de Roberto Talma. Em dezembro próximo completam-se duas décadas da partida de Jobim, morte que ocorreria sete anos depois da gravação do programa. Jobim estava na casa dos 60. A abertura do programa é em Nova York, entre o Museu Americano de História Natural e o Central Park. Os letreiros informam que aquele trabalho é “baseado em papos e sons de Tom Jobim”. Sob o som de sua versão para as “Bachianas Brasileiras nº 5”, de Heitor Villa-Lobos, Jobim passeia pelo parque, acompanhado de seu charuto, e, com toda sua obstinação pela natureza, em outros momentos dá explicações sobre espécimes presentes no museu.  Uma pausa nas “Bachianas...” para Tom Jobim se sentar em um banco e tocar violão. O repórter provoca e ele conta a razão de ser da música “Desafinado”. “Eu fiz para defender o sujeito não especializado”, justifica, rindo. E canta, revelando em seguida que originalmente criou um outro final para a canção, com um desafino real, como mostra naquela hora, mas completa que João Gilberto, ao gravar a composição, não quis assim, desafinando (imagine!), e cravou a versão definitiva. De volta ao museu, Tom mostra um urubu-jereba empalhado, fala sobre as características da ave, diz que no Brasil, terra de abundância de pássaros, todos os bichos ou nadam, ou voam ou trepam; e sugere que, nas asas do jereba, viajemos naquele momento ao Rio de Janeiro. Em seguida surgem as imagens do mar, do Cristo Redentor e do Corcovado, embaladas pela música “Samba do Avião”. Já em um palco de teatro, na sequência, Tom Jobim ao piano interpreta seu repertório, algumas vezes acompanhado por sua Banda Nova, números que são alternados com convidados como Chico Buarque e Edu Lobo, Gal Costa, Joyce, Marina Lima, cantando, respectivamente “Anos Dourados”, “Choro Bandido”, “Dindi”, “Insensatez”, “Lígia”. A versão de “Luiza” traz imagens em clipe da atriz Vera Fischer no auge de sua beleza. Caetano Veloso presta sua homenagem cantando sozinho, ao violão, “Eu Sei que Vou Te Amar”. Antes da última música, “Borzeguim”, há um breve depoimento do mitológico saxofonista Stan Getz, de frente para Tom, os dois sentados em um sofá, tomando champanhe. Ele diz: “Na primeira metade deste século (XX) nós tivemos grandes compositores: os Gershwin, Jerome Kern, Cole Porter, Irving Berlin. Na segunda metade, do meu ponto de vista, há três compositores que representam o máximo de gênio e beleza na música. Um deles é o Jobim”. Tom movimenta o chapéu para baixo, em sinal de agradecimento.  O DVD traz um curioso extra em preto e branco com Tom Jobim e Gerry Mulligan muito novos, parece que em um programa de TV nos Estados Unidos, em que Antonio Brasileiro tenta responder a um apresentador o que é de fato a Bossa Nova. E os dois músicos exemplificam, tocando juntos o “Samba de uma Nota Só”, com a expressão de um Mulligan maravilhado. Antes disso, Jobim lê em um parque o “Poema da Necessidade”, de Carlos Drummond de Andrade. A última estrofe diz: “É preciso viver com os homens,/ é preciso não assassiná-los,/ é preciso ter mãos pálidas/ e anunciar o FIM DO MUNDO”. Tom Jobim se encanta principalmente por um verso, que repete, mexendo as mãos para a frente: “é preciso ter mãos pálidas”. 

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