Amor de lucky, música de loki

“Loki?”, disco transcendental de Arnaldo Baptista, faz 40 anos de reinvenção do som e linguagem da música brasileira

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

História. O músico Arnaldo Baptista em foto de 1978, quatro anos após o lançamento do desacreditado “Loki”, colhendo os frutos de um disco revolucionário
grace lagoa/divulgação
História. O músico Arnaldo Baptista em foto de 1978, quatro anos após o lançamento do desacreditado “Loki”, colhendo os frutos de um disco revolucionário

Em agosto de 1974, Arnaldo Baptista chegava a tomar até duas doses de LSD por dia no refúgio que criou na Serra da Cantareira, em São Paulo, cantando coisas como “será que eu vou virar bolor?”, enquanto o mundo desabava lá fora. Eram três fantasmas rondando sua solidão: o fim dos Mutantes, o sumiço dos amigos que passaram a considerá-lo um maluco lisérgico perigoso e o amor viciante por Rita Lee, interrompido quando a mulher e menina dos seus olhos cansou de tanta psicodelia e se desfez da aliança de casamento.

Em três meses vivendo a tríade tristeza, drogas e arranjos de piano, nasceram as dez canções viajantes de “Loki?” (Phillips, 1974). Agora, o álbum mais transcendental do rock brasileiro completa 40 anos de uma história que vai além do experimentalismo sonoro que enfeitiçou Kurt Cobain, e se revela como um dos mais belos desabafos de amor solto de uma garganta.

“Loki” é coisa de maluco mesmo, mas acabou virando “lucky”, coisa de sortudo – literalmente. Aos 66 anos, hoje Arnaldo Baptista entende isso como uma criança que aprendeu a se equilibrar na bicicleta sem precisar da ajuda dos pais. “Existiam várias coisas reversas na minha vida e eu me sentia afundando cada dia mais, às vezes dava um medo absurdo de acordar, uma insegurança de viver mais um dia sem ninguém ao redor pra te segurar. Nesse sentido, eu tentei jogar uma cartada para que aquela loucura toda do ‘Loki?’ se transformasse em alguma sorte. E foi o que aconteceu”, diz.

Aos 23 anos de idade, porém, o estopim para que Arnaldo Baptista se visse abandonado explodiu sem que ele ao menos se desse conta do surto que teve durante um ensaio dos Mutantes, em São Paulo, no bairro Pompeia, onde ele, o irmão Sérgio Dias e Rita Lee injetaram a psicodelia lisérgica no Tropicalismo. “Ele ficou repetindo rimas aleatórias com o próprio nome no microfone durante um tempão e depois falou que ia ver a nave espacial que estava construindo. Aquilo me preocupou porque ele falava sério”, lembra o ilustrador Antonio Peticov, amigo da banda, que apresentou o LSD ao Mutante, na primeira viagem da turnê internacional deles em Paris, ainda em 1971.

Em casa, Arnaldo Baptista não recebia visitas, até que o então diretor artístico da gravadora Phillips, Roberto Menescal, apareceu para escutar algumas canções novas do primeiro álbum solo do loki apaixonado. “Eu achei que nem venderia tanto assim o disco. A Pollygram se recusou a gravar, ninguém queria envolvimento com o Arnaldo, mas achei que aquilo fazia parte da história e precisava ser registrado”, disse. O produtor convidado Marco Mazzola lembra que Arnaldo Baptista tinha tudo na cabeça. “O Arnaldo não deixou a gente regravar nenhum take do disco, foi tudo de primeira e anos depois fui entender que aquela espontaneidade era essencial. Eu estava envolvido com o Raul (Seixas), acostumado a maluquices de todos os tipos, mas ‘Loki?’ estava anos luz de qualquer coisa”, atesta.

Isso porque “Loki?” não é apenas um disco físico. É uma viagem abstrata de disco voador por outros cosmos, passando pela terra do “chuchu beleza” e do “tomate maravilha”, até as juras de amor malucas que prometem vontades absurdas e impossíveis: “com mil anos de idade eu vou te achar”.

Em apenas 33 minutos – são exatos 16 minutos e 50 segundos em cada lado da bolacha –, Arnaldo Baptista construiu um disco de rock sem uma única nota de guitarra, substituindo a agressividade das seis cordas por arranjos hipnóticos de piano, acompanhado do simplismo de Liminha no baixo, Dinho Leme na bateria e o próprio loki tocando piano, órgão, clavinet, sintetizador, violão de 12 cordas, além de cantar todas as músicas. “Eu não sabia tocar guitarra direito e sentia que minha alma estava no piano, então fiz rock sem guitarra mesmo”, diz.

Assim, “Loki?” se tornou um altar particular de Arnaldo Baptista, em que ele pede desculpas e suplica por abraços (“Desculpe”), questiona o apego de coisas materiais (“Será que Eu Vou Virar Bolor?”), usa o ame-o ou deixe-o da ditadura militar para pedir uma definição sentimental (“Vou Me Afundar na Lingerie”) e pergunta sem papas na língua: Cê acha que eu sou loki, bicho?

Como Zélia Duncan percebeu ao se juntar aos Mutantes em 2006, após recusa de Rita Lee em participar da turnê comemorativa da banda, Arnaldo Baptista nunca foi loki de verdade. “Ele tinha angústia de compreender porque não era compreendido. Coisas do amor, entende?”, diz a cantora.

Hoje, Arnaldo Baptista parece viver o amor que tanto preza em pequenas doses diárias de sossego em seu sítio em Juiz de Fora, na Zona da Mata, e em sua casa na Savassi, em Belo Horizonte, ao lado da mulher, Maria Lúcia. Com uma fala mansa de quem parecer rir como criança enquanto conversa, o ex-líder dos Mutantes pode dizer que aprendeu com o tempo a dimensionar todo o amor que o fez surtar e explodir de felicidade ao mesmo tempo. “O amor é uma coisa tão difícil de explicar quanto a minha preferência por amplificadores valvulados: todo mundo critica por ser ultrapassado, mas só você sabe como se sente melhor”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave