Perdemos a Copa, e daí?

iG Minas Gerais |

A vida nacional foi sintetizada, nos últimos dias, no balanço da participação brasileira na Copa do Mundo. No último mês, a nação se esqueceu de todos os seus problemas e das suas urgências e esperou, num sentimento quase infantil, que o Brasil se sagrasse campeão da Copa do Mundo. Esperavam o milagre, motivados pelos novos estádios construídos ou reformados, aeroportos renovados e ampliados, centenas de hotéis colocados à disposição de um público que veio ao Brasil torcer pela sua seleção. Obras de infraestrutura e a mobilidade urbana repensada, no que foi possível construir, serão incorporações importantes que ficarão no ativo da sociedade, há décadas sacrificada pelo convívio com a timidez da oferta desses recursos no país. Não acontecendo o resultado, como esperado, a vida vai se encaminhar novamente à realidade de cada quatro anos. Desde 2002, quando fomos pentacampeões e daí não mais isso se repetiu, seguimos vivos e no mesmo caminho, independentemente da participação que tivemos nas copas. Quando se pergunta se o quarto lugar que conquistamos vai afetar os resultados das eleições, a resposta é rápida: em nada. O brasileiro nunca esteve tão pragmático e funcional e os resultados que o estimulam estão suportados pelas suas conquistas reais. Ficamos mais críticos, queremos ir além. Há uma demanda a cada momento maior de avanços, de qualidade, de participação no bolo, de consumo, de recursos que se reflitam na melhoria de vida de cada um. Se é discutível a qualidade da educação hoje oferecida pela enxurrada de faculdades abertas para distribuir diplomas, é bem verdade também que a clientela que acessou tais faculdades ampliou seu senso crítico e substituiu as paixões pelo seu dia-a-dia. Em paralelo, é significativa a realidade dos que passaram a consumir mais, a participar mais, a ter mais, mesmo que seja através de um endividamento alimentado por facilidades cuja conta beira o impagável. Mas é a realidade. A consumação dessa verdade torna urgente a construção de uma nova modelagem da representação popular. Estamos à deriva, sem lideranças, sem referências, sem apelos e com paixões pontuais. Temos críticas, mas não temos metas. Hoje no Brasil ninguém é capaz de identificar, seja nos partidos políticos ou na sociedade civil, nas representações de classe ou nas universidades, nos meios artísticos ou do esporte, alguém que esteja investido de vontade e condições para liderar com grandeza um projeto de mudanças. A três meses das eleições, na qual elegeremos (ou reelegeremos) o presidente da República, os governadores dos Estados, os membros do Congresso Nacional e das assembleias legislativas, o que se percebe é a absoluta indigência de projetos e propostas de reconstrução desse país que vem recebendo estímulos a conta-gotas, assistindo a cada dia alargar-se o abismo entre o que somos e o que precisamos ser.

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