‘Queremos formar um cidadão’

Graça Sette - Professora de língua portuguesa coautora da coleção de livros didáticos “Português - Linguagens em Conexão”

iG Minas Gerais | Cinthia Ramalho |

“O português brasileiro se divide em muitos, e o nosso objetivo é conseguir falar com o Brasil inteiro”
Acervo pessoal
“O português brasileiro se divide em muitos, e o nosso objetivo é conseguir falar com o Brasil inteiro”

O Ministério da Educação (MEC) divulgou a lista dos livros didáticos que serão distribuídos para os alunos do ensino básico no ano que vem. Dentre as obras de língua portuguesa aprovadas, está a coleção “Linguagens em Conexão”, das escritoras mineiras Graça Sette, Márcia Travalla e Rozário Starling, publicada pela editora LeYa. O material foi aprovado pelo MEC sem nenhuma correção. Em entrevista a O TEMPO, Graça Sette considerou o resultado um grande reconhecimento do trabalho realizado.

Como o MEC seleciona os livros que poderão ser adotados nas escolas? Para ser aprovada, a obra deve obedecer a alguns critérios, como pertinência e adequação ao conteúdo digital, tem que ter correção e atualização de alguns conceitos e princípios éticos. Além disso, os livros têm que trabalhar a questão da interação entre as diversas disciplinas, que é a interdisciplinaridade, e também se preocupar com a questão da construção da cidadania, ou seja, levar em conta a formação de cidadãos.

E o que significa a escolha da sua obra? Representa, primeiramente, o reconhecimento do nosso esforço e do nosso trabalho. Somos um grupo de autoras muito comprometidas com a educação. Sempre estivemos em sala de aula, então, este trabalho é a síntese das nossas trajetórias como professoras. Sempre investimos na qualidade, justamente porque acreditamos muito na educação e também na escola pública, por isso, o nosso interesse em elaborar um material que seja bom para alunos e professores.

Para os autores, existe alguma diferença em elaborar materiais para escolas públicas e privadas? Acho que não. Como autoras, queremos que o livro ajude os alunos a chegarem às universidades e que consigam se sair bem tanto na vida acadêmica quanto na vida profissional. Para isso, entendemos que o domínio da língua é fundamental, já que quem não domina a língua acaba tendo problemas para se inserir no mercado. Essa busca pela qualidade é a mesma, não importa se o livro vai para a escola pública ou para a escola privada. Como o Brasil é grande, temos que nos preocupar em pensar no universo de jovens que vivem em realidades diferentes. O que queremos é formar um cidadão, indiferentemente da sua classe social.

Qual o diferencial do livro escrito pelas senhoras? São livros destinados aos alunos do ensino médio, então, tentamos dar muita ênfase ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), trabalhando muitos textos e questões sobre atualidades. Além disso, como são livros distribuídos em todo o país, tentamos eleger textos que contemplem toda a diversidade cultural brasileira. Nos livros, nós discutimos muito sobre a variedade linguística, justamente porque achamos que o Brasil não fala uma língua só. O português brasileiro se divide em muitos, e o nosso objetivo é conseguir falar com o Brasil inteiro, fornecendo aos professores e aos alunos uma proposta pedagógica centrada na leitura e na produção de textos. Outro diferencial é que não damos atenção apenas aos textos verbais, mas também aos visuais, por meio de tirinhas, letras de música e obras de arte. Então, posso dizer que o diferencial da nossa obra é o foco na contemporaneidade.

O livro também tem uma forte relação com o conteúdo digital. Como isso funciona? É bem interessante porque o aluno pode baixar toda a obra em seu computador. Com isso, ele fica livre para acrescentar textos e responder as questões no próprio material. O livro apresenta muitos links que direcionam o aluno para vários sites. Por exemplo, o aluno pode ler um poema do Carlos Drummond de Andrade que está no livro e, com o link que está indicado abaixo do poema, pode ligar o computador e acessar o texto sendo lido pelo próprio Drummond.

Como é o processo de produção de uma obra didática? Uma coleção didática não se restringe apenas ao trabalho dos autores, tem todo um grupo de pessoas envolvidas nisso e que pensam o projeto gráfico, divulgação e uma série de coisas. Nosso livro demorou três anos para ficar pronto. Em relação ao trabalho dos autores, é necessário, primeiro, que sejam pessoas que gostem de aprender e ensinar. Além disso, o autor de um livro didático tem que gostar de ler e não pode ter preconceito. Se você escreve para jovens, tudo tem que te interessar, da revista para adolescentes até o jornal. O grande desafio é escrever com consistência, mas de forma clara, objetiva e agradável. Temos jovens que andam muitas horas para chegar à escola, que têm que pegar barco para estudar, mas também temos os alunos que têm acesso mais fácil às novas mídias e tecnologias. Então, temos que pensar em tudo isso.

Agora que a obra foi selecionada, o que acontece? O governo federal mandará um guia com as obras aprovadas para as escolas. A escolha é dos professores. Eles se reúnem, leem os pareceres do MEC e tentam identificar qual obra tem mais a ver com o projeto da escola em que trabalham para poder adotá-la.

Qual a importância do livro didático para a educação? Para começar, temos que levar em conta que ser professor não é fácil. Os professores brasileiros são os que têm a maior carga horária no mundo. Às vezes, chegamos a trabalhar três turnos, então, o material didático tem que favorecer o professor. Tem que ser organizado, tem que ser uma ferramenta que ajude o professor em sala de aula. Quando o professor se sente dono do material didático, as coisas vão bem. O livro didático só tem sentido se é usado pelo professor, fora isso, é só papel. Ele tem que dar ao professor condições de pensar coisas que a falta de tempo não o permite pensar.

A senhora acha que falta investimento ou interesse do governo em relação à produção de livros didáticos? Acho que os governos estão investindo cada vez mais na qualidade dos livros didáticos. As escolas recebem ajuda para a compra de livros e material didático, e isso é um ponto forte da política educacional do país. Sou otimista em relação à escola e acho que as coisas estão caminhando. Hoje, os jovens carentes estão chegando às universidades, e os filhos desses jovens também chegarão à escola, porém, em condições mais favoráveis do que as de seus pais. Se fizermos uma retrospectiva, veremos o quanto já caminhamos. Agora, é fato que precisamos caminhar muito mais. Às vezes, temos um discurso de que os jovens não gostam de ler. Isso não é verdade. Valorizo todo tipo de texto e acho que o jovem tem que ter condição de conhecer vários autores para depois escolher o que gosta de ler. A leitura não pode ser imposta. O professor tem que criar situações para que o aluno goste de ler. Eu acredito que um professor que gosta de literatura conseguirá formar bons leitores.

Qual o futuro do livro didático? Eu acho que ele ainda é uma ferramenta muito importante em sala de aula. Existem lugares nesse país em que os alunos só têm contato com os textos e com os conteúdos por meio dos livros, pois eles não têm acesso fácil às novas tecnologias. Acho que ele ainda durará muito.

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