O cágado, o surubim, o minhocuçu e o filósofo

iG Minas Gerais |

O mundo pode ser cruel, mas quem inventou e desenvolveu a crueldade foi nossa mãe natureza
Intervenção sobre retrato de filósofo metafísico bifronte
O mundo pode ser cruel, mas quem inventou e desenvolveu a crueldade foi nossa mãe natureza
No fundo de certo rio, largo e lamacento, passeava languidamente esplêndido exemplar de cágado-d’água-doce. Passeava movendo as patas em remo, balançando o pescoço fino e comprido, abanando o rabinho troncho. A certa distância, agitando vagamente as nadadeiras, magnífico exemplar de surubim-rajado deslizava sutilmente, barrigão cheio, mas nem por isso alheio a qualquer petisco que por ali bobeasse. Entre os dois, dependurado nas farpas de graúdo anzol holandês, robusto minhocuçu-jamanta requebrava pra lá e pra cá, tentando escapar da armadilha na qual estava espetado e oferecido, como é natural, ao apetite de esfomeados predadores. Na margem, cismava esquálido filósofo metafísico, enquanto vistoriava a ponta da vara, atento às beliscadas dos peixes. CISMAS DE FILÓSOFO “Como foi cruel a natureza!”, ruminava o filósofo metafísico. “Primeiro, criou os rios. Depois, os peixes. Daí, criou os quelônios. Em seguida, os anelídeos. E tudo isso pra que se comessem uns aos outros. Isso é que foi sacanagem”. Parou, pensou e continuou. “O pior é que eu também estou nessa, comendo os peixes”. CISMAS DE CÁGADO “Até que não é má esta minha vida”, filosofava o cágado-d’água-doce. “Passeio sem direção aqui dentro, quase sempre de barriga cheia. Creio que posso dizer, sem qualquer margem de erro, que sou perfeito. Não tenho inimigos aqui e, nas poucas vezes que subo à margem, tomo sempre cuidado com predadores. Se aparecem, caio na água imediatamente ou, se não dá tempo, enfio cabeça e patas no casco – e fico assim, até que o atacante desista. Como desejar mais?”. CISMAS DE SURUBIM “Não tenho do que reclamar, em minha perfeição”, matutava o surubim-rajado. “Grandalhão, estou livre de peixes menores e esfomeados. Não se atrevem a me atacar, pois morrem de medo de minhas rabanadas. Nado para onde quero, devagar e sempre, ou descanso no fundo macio, na lama fofa produzida pelas folhas caídas das margens. Seria bobagem querer destino melhor”. CISMAS DE MINHOCUÇU “O diabo é que não tenho pra quem apelar”, resmungava o minhocuçu-jamanta, se contorcendo na ponta do anzol. “Nem ao menos sou filho legítimo de um casal de minhocuçus, mas produto de um minhocário comercial, que compra ovos anônimos aos milhões. É isso o que sou: filho natural de ovo sem pai nem mãe”. Contorceu-se mais um pouco e continuou resmungando. “Se ao menos eu soubesse de quem nasci... Mas, não. Sou apenas um anônimo qualquer, sem raça e sem nome, sendo apenas grande e, por isso, e infelizmente, reproduzido em série de nem sei quantos”. GUERRA DE NERVOS Olhando para bem longe, nada via da natureza o filósofo metafísico. Apenas acompanhava os próprios pensamentos em convulsão, neurônios disparando sinapses, átomos e prótons gerando ideias e resolvendo problemas teóricos. Mas não havia o que resolver. Ou havia? Para ter certeza, precisamos ver como se organizavam os exércitos conflitantes, ou seja: rebolando no centro, o minhocuçu; deslizando para cima, o cágado; nadando para baixo, o surubim; em cima, gastando sinapses, o filósofo metafísico. CONFLITO DESARMADO Então, como era inevitável, como estava determinado desde que a natureza criou céu, terra, água e bichos, aconteceu o encontro gastronômico. No meio, delicioso e suculento, o minhocuçu-jamanta. Olhando-o com olhinhos marejados de felicidade, salivavam o cágado-d’água-doce e o surubim-rajado. Que fazer? Pela lógica natural das coisas, ou seja, com ênfase na cadeia alimentar, o cágado comeria o minhocuçu, o surubim almoçaria o cágado e, pescado pelo filósofo, o surubim seria servido em filosófico banquete a filosóficos gastrônomos. Havia, porém, certa desordem nessa ordem. Vejamos. Se o cágado comesse o minhocuçu e o surubim comesse o cágado, como pescaria o surubim nosso filósofo? É claro que só conseguiria pescar o surubim se o cágado não comesse o minhocuçu e, sim, se o surubim comesse o minhocuçu. PROTESTA O CÁGADO   Foi isso mesmo que disse o filósofo aos litigantes: haveria de ser modificada, para que os fatores se encaixassem, a ordem das comilanças. – Vamos organizar essa cadeia alimentar, disse o filósofo, entrando de roupa e tudo dentro d’água. – Do jeito que tá não pode ficar. – Discordo! – reclamou o minhocuçu. – Essa tal de cadeia alimentar não tá com nada! Exijo meus direitos naturais de anelídeo. – Mas, meu caro – respondeu o filósofo –, sua parte na cadeia está encerrada. Você se alimenta de matéria orgânica animal e vegetal em decomposição, e foi o que fez. Comeu, encheu a barriga, lambeu os beiços, e agora deve ser comido pelo surubim para que eu o pesque. – Assim não vale – protestou o cágado. – E minha parte na comilança? Ou vocês pensam que sou um zé-mané, um joão-ninguém? – Nem tudo é como a gente quer – respondeu o filósofo. – Na cadeia alimentar, uns comem, outros ficam chupando o dedo. É a seleção natural praticada por quem pode mais. Como representante das classes superiores, que põem ordem na desordem natural das coisas, cabe a mim decidir o que é melhor para todos. E fim de papo.

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