Médicos jovens e o fator RH

iG Minas Gerais |

Dom e vocação vem da genética, e o desejo de ser médico pode ter influências de várias pessoas e lugares. Compreensível que pais ainda sonhem em ter filhos médicos, profissão ainda com certo status, mística, mas...  Eu, particularmente, não percebi nos três mais velhos nenhum talento e com alívio vejo que as escolhas por economia, arquitetura e publicidade estão de ótimo tamanho. Mas tenho ainda três menores ainda precoces para escolha. Pelo que ando vendo, não estimularia seguir meus passos, e caminho tão sofrido, mas encantador. Quanto mais nova seja a geração dos que iniciam sua formação acadêmica, maior a péssima safra de médicos que é lançada no mercado. Ou, quanto mais faculdades de medicina são abertas para atender o mercado de saúde pública, maior a possibilidade de insatisfação da população com a deteriorada relação médico-paciente. Faculdades particulares abertas com forte lobby político e interesses escusos pioram cada vez mais a qualidade dos médicos, com péssima estrutura, professores sem atributo técnico, sub-remunerados, currículos universitários defasados e absoluta falta de triagem dos adolescentes que nem reconhecem suas habilidades para exercer uma profissão dificílima, onde uma minoria se enriquece (infelizmente a visão mercantilista ainda é predominante, como se ser médico fosse equivalente ao que, antigamente, passar nos concursos do Banco do Brasil foi numa época, garantia de emprego e remuneração eterna e segura). Estudos feito há anos pela USP, mostrou que após dez anos de formado, 2/3 dos médicos tinha arrependimento da escolha profissional, havia alto percentual de abuso de álcool, índices de depressão, bem como excesso de plantões, média de três a quatro empregos, que geravam renda média total de pouco mais de dez salários mínimos. Equilibrar-se entre empregos públicos precários, convênios médicos que pouco mais são que um SUS para classe médica, correr de um lado para outro, perder noites de sono, lidar com falta de leitos, recursos terapêuticos, entre outras mazelas, vão minando o entusiasmo, idealismo e por fim, e mais grave e triste, o humanismo, essenciais ao exercício daquela que deveria ser a mais nobre arte de ajuda humana. Não temo afirmar que de cada três profissionais que convivi, um era médico de coração, mente e alma, enquanto o restante era técnico de medicina. Em ambientes hospitalares, destaco o papel de acolhimento, compaixão, empatia muito mais nos demais profissionais de saúde (enfermeiras em seus diversos níveis, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, fono, entre outros), do que nos médicos, muitas vezes sem tempo, estressados, endurecidos pelo temor de erros médicos, com filas desumanas de pacientes aguardando em corredores, emergências, feito gado sem dono. Do Mais Médicos, digo que com toda controvérsia, ao menos os profissionais escutam melhor, segundo o que alguns levantamentos mostram. Além de preencher um nicho que médicos brasileiros não andam querendo pequenos municípios, periferias perigosas ou distantes. A meu ver, somente projetos minimamente inteligentes onde estágios nos dois últimos anos fossem obrigatórios, sob supervisão de professores bem remunerados que se dispusessem a atuar parte do seu tempo nestes rincões, bem como obrigação de residência de um ano em atenção primária e de média complexidade (UPAs), antes da especialização, substituiria o programa, que tem forte conotação política, mas que expõe o quanto a população esta desamparada e insatisfeita com a saúde pública e seus médicos. Quando me dispus a projetos de qualificação da área de saúde pública, e fui a campo no interior do centro-oeste, sofri com o coronelismo médico, quase uma máfia, com políticos desastrosos e corruptos, mas um apoio popular comovente e interesse de profissionais de saúde (menos os médicos!). Por isso, não me espantei quando conversando com um funcionário de um Conselho Regional de Medicina, onde contava os absurdos que testemunhei de jovens e despreparados médicos, este me contou um caso que resume todas as palavras acima: durante o processo de preenchimento de seus dados pessoais para obter sua inscrição no CRM, perguntou placidamente ao funcionário: “O que eu coloco neste item escrito RH? Espantado, este disse: “Doutor, estão querendo saber seu tipo sanguíneo!”. “Aahhhh! Mas eu não sei, deixa eu ligar para mamãe”. Fechem as cortinas...

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