Sob a dinâmica da ocupação

Festival de Inverno da UFMG começa no dia 18 propondo novos olhares para o campus e para a própria BH

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Ações. Imagens produzidas pela revista “Piseagrama”, ilustram a tentativa de transformar o campus da UFMG em um parque
revista piseagrama/reprodução
Ações. Imagens produzidas pela revista “Piseagrama”, ilustram a tentativa de transformar o campus da UFMG em um parque

Se nas edições anteriores, um dos focos do Festival de Inverno da UFMG era buscar, por meio das itinerâncias, uma aproximação do repertório histórico e artístico do interesse da população, a meta agora é redescobrir os espaços da própria Belo Horizonte. É assim que o evento, nascido em Ouro preto em 1967 e sediado desde 2000 em Diamantina, retorna agora à capital mineira, se espalhando por diversos pontos do campus localizado na região da Pampulha.

“É vital a conexão cada vez mais do campus com a cidade. O ambiente é um lugar maravilhoso, com áreas verdes lindas. O festival proporciona esse outro tipo de reconhecimento que precisa se fortalecer. Há ali possibilidades de convivência que, se os próprios alunos desconhecem, é compreensível que elas sejam ainda menos percebidas pelo restante da população. Propor novas relações com esses territórios é algo a ser alcançado neste ano”, afirma Leda Martins, diretora de ação cultural da UFMG, organizadora da 46ª versão do evento.

Elegendo os movimentos sociais, empreendidos muitas vezes por coletivos artísticos como tópicos centrais de discussões e de produções audiovisuais a serem exibidas na programação, o festival, para Claudia Mesquita, curadora da mostra Cine Maloca, difunde em 2014 o termo ocupação não só por meio desses diálogos, mas com práticas a serem continuadas.

“O festival sendo realizado ali talvez seja uma maneira da universidade propor ou ensinar alguma coisa para a cidade. Esse tipo de convivência do espaço é uma forma de deslocamento que estamos precisando para entender melhor algumas coisas. Acho que todas as atividades vão desenhar um momento muito especial e ao invés de repetir algumas condições, é interessante que o campus proponha outros tipos de relações que podemos ter com as cidades”, opina Claudia Mesquita.

Apesar de migrar para Belo Horizonte, o festival, que acontece entre os dias 18 e 26 de julho, mantém laços de continuidade com o projeto iniciado em 2012, em Diamantina. De acordo com o coordenador, César Guimarães, a afinidade maior está ligada ao tema central Bem Comum que norteia o recorte de 2014: “Campus, território experimental”.

Trilogia. “Nós entendemos esta edição como a terceira etapa de uma trilogia. O conceito que orientou o evento de 2012, em Diamantina, é o mesmo que aplicamos aqui. Há algumas diferenças em relação aos aspectos que abordamos. Estamos dando atenção a questões vinculadas à própria dinâmica da cidade e que estão na ordem do dia, como a mobilidade urbana, a atuação dos movimentos sociais, além da tríade formada pelas culturas afro-brasileiras, indígena, urbana e que dão subsídios para a criação das atividades já há dois anos”, explica César Guimarães, coordenador do Festival de Inverno.

Ao se concentrar no ambiente onde circulam professores e estudantes diariamente, o conjunto de ações mantém a proposta de abarcar temáticas contemporâneas colocando em destaque, assim, a ideia de ocupação. O objetivo, de acordo com a curadoria, é renovar o olhar do público para aquele espaço, estimulando a reflexão sobre alternativas viáveis para se aproveitar melhor as relações e estruturas ali presentes. Para o arquiteto, professor e curador, Roberto Andrés, essa perspectiva pode tornar viável a reverberação de atitudes e reflexões que tenham sentido dentro e fora dos limites da academia.

“Vamos propor algumas intervenções no campus que permitam entender aquele território como um lugar em que também podem existir outros modos de vida. Algo um pouco diferente do que encontramos lá hoje. O campus atualmente espelha a cidade, tanto a condição de segregação quanto, por exemplo, o modelo ineficiente de mobilidade urbana, ancorado na ênfase na circulação dos carros”, observa Andrés.

Ciclistas. Na contramão disso, durante o evento, parte das vias internas da universidade será fechada para os veículos e vai estar aberta apenas para pedestres ou ciclistas. Andrés conta que vai estar disponível um sistema de bicicletas compartilhadas, semelhante ao que vem sendo feito em Belo Horizonte. “Mas ali vamos usar apenas aquelas que já foram descartadas. É um trabalho que mira a consciência para o destino dos objetos, entendendo o potencial deles para a sua reutilização”, acrescenta o curador.

Haverá ainda a criação de hortas comunitárias para chamar a atenção para as vantagens de se ter um campus capaz de ser cultivado.

“Vamos colocar também algumas barracas com alimentos, mostra de publicações e design, no formato de feiras, que atendem a uma construção de sentido capaz de transformar aqueles espaços. Assim, é possível defender o campus como uma espécie de parque nos fins de semana, o que cumpriria a função pública de oferecer lazer de qualidade aos habitantes da cidade”, sublinha Andrés.

Revisar o papel desse espaço para Leda Martins, diretora de ação cultural da UFMG, é uma das principais provocações deste ano do festival. Para ela, a manutenção das estratégias de questionamento que se lançam desde a forma como se organiza o evento até a maneira como ele se adapta ao seu entorno, é uma das principais qualidades percebidas no percurso do projeto ao longo do tempo.

“A história do Festival de Inverno é longa e até a atual edição houve muitos movimentos. Ele construiu trajetórias fabulosas, fantásticas, então faz parte da natureza desse projeto colocar em evidência essa dinâmica de mobilidade e transitoriedade. Ele se abre para diferentes modalidades de conhecimento em diferentes épocas e isso vem sendo algo estruturante também dessa trilogia inaugurada em 2012”.

 

Inscrições

Quem se interessar em participar dos grupos de trabalho da 46ª edição do Festival de Inverno da UFMG pode se inscrever, em no máximo duas propostas, até hoje no endereço: 46festivalufmg.wordpress.com/inscricoes. A atividades abarcam diversas áreas, como ativismo, fotografia, cinema, transporte, culinária, entre outros.

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