Lágrimas

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Quando eu era criança, sempre era lembrada como “a chorona”. Bastava pedir alguma coisa para os meus pais e não ganhar que lá vinha choro. Se brigava com meu irmão, mais lágrimas. Quando me machucava em uma brincadeira, escândalo certo. E se minha mãe ralhava comigo, aí é que o berreiro durava horas e horas mesmo. Não sei como eu não desidratava. Aos poucos, fui mudando esse jeito, nem sei por qual motivo, e deixando pra chorar quando realmente fosse necessário. Comecei a perceber que o que enchia meus olhos de água era muito mais alegria do que tristeza: uma crise de riso com minha amiga de infância dentro de um elevador lotado, um filme de amor de dar frio na barriga pelo final feliz, um reencontro depois de muita saudade. Outro dia, hospedei uma amiga em minha casa, e ela me fez lembrar um pouco o que eu já fui. Por três vezes ela chorou, espontaneamente, por motivos diferentes: uma música triste que eu mostrei, uma história que escrevi, um caso que ela me contou. Achei tão bonito uma pessoa ter essa facilidade de se emocionar e me peguei pensando o motivo da minha escassez de lágrimas. Acho que a principal razão é o costume com a tristeza. Quando sofremos, choramos, ficamos angustiados, sentimos dor... mas, um dia, aquilo passa. Porém, com o sofrimento, mudamos, não só no jeito, mas também na força. Nós nos tornamos mais resistentes. Como se os acontecimentos da vida nos calejassem e os novos problemas não parecessem mais tão graves assim. E fiquei assim por um tempo. Anestesiada. Seca. Até hoje. Porque, hoje, a dormência que eu sentia foi embora. Talvez como um castigo por eu estar incomodada pela falta de emoção, toda a tristeza do mundo se instalou em meu peito. E eu chorei. Chorei pela incerteza e pela dúvida do meu coração. Chorei ao constatar quão efêmera é a felicidade. Chorei por não estar chovendo e eu ter que olhar essa lua crescente rindo de mim. Chorei por querer que o ontem se repetisse e que o amanhã já estivesse aqui. Chorei por não ter dormido nada durante a noite por pura ansiedade esperando por esse dia que eu achei que pudesse ser perfeito. Chorei pelo meu engano. Chorei de saudade. Chorei de paixão. As lágrimas ainda escorrem. O peito dói. A garganta aperta. Apenas uma coisa me consola: A sensação de estar viva. Porque pior do que essa angústia que derrama o meu choro é a sensação de não sentir nada. Sei que essa tristeza vai embora daqui a pouco, quando o sol nascer. Mas pelo menos agora eu sei que continuo capaz de ter emoções tão intensas quanto as que eu tinha no passado. Antes derramar lágrimas do que ter um rosto constantemente seco e um coração sem sentimentos. Antes atravessar uma tormenta que nos sacode e nos faz pensar do que passar pela vida anestesiados. Porque só quem sente a tristeza tem vontade de obter de volta a felicidade. E os momentos em que a alcançamos compensam todas as lágrimas que derramamos no caminho.

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