Derretimento é praticamente irreversível, aponta pesquisa

Mesmo que gases e temperaturas se estabilizem, processo vai continuar

iG Minas Gerais | Kenneth Chang |

Contraste. Imagens de comparação do Muir Glacier, localizado em um parque nacional no Alasca, nos Estados Unidos, em 13 agosto de 1941 (esq.) e em 31 de agosto de 2004, mostram derretimento real
GLACIER PHOTOGRAPH COLLECTION
Contraste. Imagens de comparação do Muir Glacier, localizado em um parque nacional no Alasca, nos Estados Unidos, em 13 agosto de 1941 (esq.) e em 31 de agosto de 2004, mostram derretimento real

Nova York, EUA. Daqui a um século, uma grande porção da calota polar da Antártida Ocidental deverá ter desaparecido, com suas centenas de trilhões de toneladas de gelo derretido, causando uma elevação de 1,2 m em mares já inchados. Cientistas relataram em maio que o cenário pode ser inevitável, com nova pesquisa concluindo que algumas geleiras gigantes já passaram do momento sem volta, possivelmente desencadeando uma reação em cadeia que poderia significar o fim do resto da calota polar.

Para muitos, a pesquisa sinalizou que as mudanças no clima da Terra chegaram ao ponto crucial, mesmo que o aquecimento global fosse detido imediatamente. “Vemos isso como portas se fechando e limitando as escolhas futuras”, afirmou Richard Alley, professor de geociências da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA.

Porém, essas geleiras são apenas os sinais mais recentes de que o descongelamento das regiões geladas da Terra está se acelerando. Embora algumas geleiras se mantenham firmes ou até mesmo crescendo levemente, a maioria está encolhendo, e os cientistas acreditam que elas continuarão a derreter até serem contidas as emissões de gás do efeito estufa. “Essa pode ser a melhor prova do impacto global real do aquecimento”, disse Theodore A. Scambos, cientista-chefe do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos EUA.

Mais adiante no derretimento estão as pequenas geleiras no alto das regiões montanhosas dos Andes, dos Alpes, dos Himalaias e no Alasca. Em si, seu derretimento não representa uma ameaça grave; juntas, elas respondem por somente 1% do gelo no planeta e fariam subir o nível do mar de 30 a 60 cm.

Porém, as geleiras montanhosas dizem aos cientistas o que a desintegração da geleira da Antártida Ocidental agora está confirmando. Nos próximos séculos, mais terra estará coberta por água e uma maior porção da natureza será perturbada. O derretimento total faria o nível do mar se elevar 65 m.

Em análise de medições feitas, no ano passado, do satélite e no solo, a equipe de cientistas liderada por Alex S. Gardner, especialista em ciências da terra da Universidade Clark, concluiu que, em média, geleiras de todas as regiões estavam murchando, despejando 260 bilhões de toneladas métricas de água no oceano todo ano.

As calotas polares da Antártida e da Groenlândia possuem cerca de cem vezes a quantidade de gelo das geleiras de montanha juntas, mas contribuem com somente um pouco mais para a elevação do nível do mar: 310 bilhões de toneladas anuais.

Com 10% do gelo do mundo, a Groenlândia tem o suficiente para elevar 7 m o nível do mar. Em 2012, quando a temperatura do verão ártico estava particularmente quente, o derretimento da superfície foi observado em quase todo lugar nas geleiras da Groenlândia, mesmo nas montanhas, o que não ocorria há décadas. A Antártida é a maior massa congelada do planeta, respondendo por aproximadamente 90% do gelo terrestre.

Cientistas agora afirmam que o derretimento irá continuar enquanto aumentar o dióxido de carbono, que armazena calor, na atmosfera. Mesmo que o dióxido de carbono e as temperaturas se estabilizem, o derretimento e a mudança das geleiras irão continuar durante décadas ou séculos enquanto elas se ajustam ao novo equilíbrio.

Porém, a maioria do gelo ainda não está destinada a derreter. “Nós não comprometemos muito mais do que seria comprometido se continuarmos a aumentar o termostato”, disse Alley.

O que é

Glacial. As geleiras são rios de gelo formados pela neve em regiões congeladas. Com o tempo, a neve se compacta e vira gelo granulado e poroso. Quando essa neve se compacta ainda mais, vira gelo glacial.

Satélites espaciais fornecem visão global da situação Nova York. Pouco tempo atrás, a única maneira de medir as geleiras era enfiando estacas no gelo. Usando ferramenta de agrimensura, os glaciólogos marcavam o local e voltavam depois para ver o quanto o gelo se moveu. O método só dava aos cientistas informações sobre as áreas medidas. Hoje em dia, os satélites fornecem uma visão global. As imagens mostram onde as geleiras estão e como as áreas mudam com o passar dos anos. Muito útil tem sido o trabalho da missão Experimento de Clima e Recuperação de Gravidade (Grace, na sigla em inglês), da Nasa, a Agência Espacial Norte-Americana. Dois satélites idênticos têm medido a gravidade da Terra. Quando as geleiras derretem, a água flui para algum lugar e aquela parte do planeta pesa menos, enfraquecendo levemente sua atração gravitacional. O Grace não tem precisão suficiente para medir as mudanças de massa numa geleira individual, mas fornece dados sobre modificações regionais.

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