Waly em apenas uma dose

Título com a prosa ensaística e a poesia completa de Waly Salomão é publicado pela editora Companhia das Letras

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Momentos. Obra reúne os oito livros de Salomão e as letras concebidas em parceria com músicos
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Momentos. Obra reúne os oito livros de Salomão e as letras concebidas em parceria com músicos

Para organizar o livro “Poesia Total”, de Waly Salomão, primeira antologia que cobre toda a obra poética dele e que saiu recentemente pela Companhia das Letras, Omar Salomão, filho do escritor, e a editora Sofia Marutti, tiveram o cuidado de produzir algo preocupado em ser fiel ao estilo de Waly. Não deveria, portanto, soar chato nem pretensioso.  

“Não poderíamos fazer algo burocrático, pois isso não condizia nenhum pouco com a postura do meu pai”, sublinha Omar Salomão. Desde as primeiras páginas, ele afirma ter se guiado por esse objetivo: “Em vez de um prefácio, como é comum em algumas antologias, nós resolvemos publicar um texto de orelha escrito por Waly em outro título”, diz Omar, que emprestou ao projeto o olhar de curador.

O texto resume o tom da obra e exemplifica o estilo generoso e despojado de Waly, tornando a leitura uma tarefa prazerosa e convidativa. Nas frases, Salomão expõe a vulnerabilidade da instituição “autor” para defender a fruição de quem está diante dos seus escritos: “...como se sabe, o leitor é querido e livre: pode ler assim ou assado...”, diz.

“Nós quisemos propor uma forma de acessar a prosa ensaísta dele e os seus poemas, evitando uma perspectiva engessada. Não quisemos separar as coisas por classificações ou categorias porque isso delimitaria algo que tem muitos questionamentos e vitalidade. Nossa intenção foi tentar dar alguma organização há textos que parecem em constante processo de fuga, buscando outros caminhos”, explica Omar Salomão. “Por fim, acho que alcançamos um resultado que me deixa satisfeito em apresentá-lo assim”, acrescenta.

Ao cobrir mais de três décadas da carreira literária de Waly, desde a estreia com “Me Segura Qu’Eu Vou Dar Um Troço’”(1972) até “Pescados Vivos” (2004), único elaborado postumamente, a antologia percorre diferentes momentos da escrita do poeta baiano. Estão reunidos ali não só os oito livros dele, mas também as canções produzidas em parcerias com Jards Macalé, Gilberto Gil e Caetano Veloso, dentre outros, além de algumas inéditas.

Para Sofia Marutti, essa visão panorâmica é uma das qualidades desse projeto que deverá ter ainda outros desdobramentos nos próximos anos. “Acho interessante que ‘Poesia Total’ nos permite identificar as transformações presentes no percurso literário de Waly. A edição começa com ‘Me Segura Qu’Eu Vou Dar Um Troço’, expondo uma veia bastante verborrágica. Vários traços daquilo se mantêm ao longo do tempo, mas é nítido como sua poesia muda muito”, pontua Sofia.

De acordo com ela, uma novidade em breve será o relançamento de cada um dos títulos acolhidos na antologia individualmente. “A ideia é que eles saiam em uma coleção de bolso, o que atende ao desejo das pessoas transportarem as obras com elas”, completa.

Com “Poesia Total”, Waly Salomão, ao lado de Ana Cristina César e Paulo Leminski, entra para a tríade de poetas cuja produção completa chega ao público com o cuidado de quem merece apreciação e respeito. A obra segue o rastro do sucesso da antologia de Leminski, que conseguiu o feito de colocar um livro de poesias no topo dos mais vendidos em 2013.

É o que, em grande parte, influencia a publicação desta e da edição centrada nos escritos de Ana C., que junto a Leminski são autores também associados ao momento da poesia brasileira batizada marginal, nos anos 1970. Uma diferença em relação ao título de Waly é que, este, ao contrário dos outros dois, deixou um material com menos necessidade de recorrer a pesquisas.

“Nós fizemos isso muito mais no caso de Leminski, mas com o Waly não foi preciso. Como ele viveu até 2003, ele participou muito das reedições de sua obra publicadas pela Rocco. Ele, em vida, reviu com muito cuidado tudo o que produziu. Isso deixa claro como ele sabia muito bem o que queria deixar para os leitores. Tarefa que nos poupou trabalho”, afirma Marutti.

No volume, após os textos do autor a seção “Apêndice” traz uma vasta coleção de textos críticos, produzidos por nomes a exemplo de Silviano Santiano, Antonio Cícero, José Miguel Wisnik e Heloisa Buarque de Hollanda. Opiniões que, às vezes, foram veiculadas em jornais de circulação nacional, todas servem como outras portas de entrada aos viscerais textos de Waly.

“A obra é instigante e por si mesma atrai o interesse do leitor. Mas os artigos desses que são pessoas que representam as maiores cabeças da literatura contemporânea potencializam o que mostramos ali”, conclui Omar Salomão.

Poema “Minha Alegria” minha alegria permanece eternidades soterrada e só sobe para a superfície através dos tubos alquímicos e não da causalidade natural. ela é filha bastarda do desvio e da desgraça, minha alegria: um diamante gerado pela combustão, como rescaldo final de incêndio.

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