Pelo menos 40% dos crimes violentos ficam sem inquérito

Polícia Civil deixa de investigar grande parte das ocorrências, principalmente de roubos e furtos

iG Minas Gerais | Joana Suarez |

Gente. Secretário de Defesa Social alega que falta efetivo e que situação se repete no resto do país
DENILTON DIAS /O Tempo
Gente. Secretário de Defesa Social alega que falta efetivo e que situação se repete no resto do país

Há dois anos, a filha da dona de casa C.B., 54, foi assassinada com três tiros na cabeça. Até hoje o homicídio não foi desvendado. A polícia chegou a ouvir familiares e testemunhas, mas a investigação parou por aí. No caso dela, mesmo sem resultado, pelo menos um inquérito foi aberto. Milhares não chegam nem a essa fase. Pelo menos 40% dos crimes violentos (homicídio, roubo, estupro e sequestro) ocorridos na capital não passam do registro do boletim de ocorrência. E o percentual pode ser bem maior, se for considerado que metade das apurações policiais são motivadas por tráfico de drogas, crime não contabilizado como violento pelas autoridades.

Em 2014, de janeiro a maio, a diferença entre o número de crimes e o de investigações foi de 51%: foram 15.410 ocorrências de crimes violentos e apenas 7.427 inquéritos, sendo 3.602 instaurados porque houve prisão em flagrante, e não por investigação de denúncias. Nos anos anteriores a diferença é semelhante . Os inquéritos citados acima não são apenas por crimes violentos, mas também por casos de furtos, agressões e tráficos de drogas, o que faz com que a falta de solução para os casos seja ainda mais alarmante. Segundo o delegado Jeferson Botelho, superintendente de Investigações e Polícia Judiciária, metade dos inquéritos instaurados na capital são por ocorrências de tráfico de drogas – o Estado não repassou o percentual exato. Isso significa que cerca de 70% dos crimes violentos não passam do boletim de ocorrências. Recursos humanos. Para o pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG Frederico Marinho, as investigações não acontecem por falta de efetivo policial. “A situação piorou com o crescimento da criminalidade. Aumenta o volume de casos a serem investigados por uma polícia deficiente”. Na última década, o número de policiais civis em Minas cresceu 10%, passando de 9.050 para 10.031. Em Minas, há um concurso em andamento para a contratação de mil investigadores. Secretário de Estado de Defesa Social, Rômulo Ferraz admite a falta de efetivo para apuração dos casos, mas alega que essa é uma situação recorrente em todo o país. “A polícia tem prioridades, como casos de reincidência, homicídio e estupro”. Ainda segundo o secretário, os casos de roubo são o principal problema. “É um dos crimes que mais elevam os indicadores, e temos número limitados de delegados. Estamos pensando em prevenção porque esse é o crime que mais causa no cidadão a sensação de insegurança”. Enquanto isso, a dona de casa citada no início desta reportagem ainda aguarda uma resposta. “Nunca fui chamada à delegacia. Se a polícia tivesse investigado mesmo, teria descoberto tudo. Queria saber ao menos se minha filha teve culpa para ter morrido de forma tão cruel”, declarou.

Alternativa TCO. Crimes de menor potencial ostensivo, com pena inferior a dois anos, geram só o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). Foram enviados ao Judiciário no ano passado 200 mil inquéritos concluídos e 300 mil TCOs.

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