Bardo do bar: do Sinfrônio

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Estava pensativo, meio alheio a tudo, sentado em um dos tamboretes da fileira rente ao balcão do boteco do Sinfrônio, observando com vagar o desmazelo do lugar, as paredes encardidas, o chão sujo, as garrafas empoeiradas na última prateleira, mais próxima do teto, e lá fora a praça da Estação já quase sem movimento àquela altura da noite. Notei uma barata se esgueirando sorrateira a partir da porta do banheiro. Simpatizei com ela e, numa espécie de delírio kafkiano, me pus em seu lugar, imaginando os périplos de seu dia a dia e, em particular, os que ela enfrentaria a partir daquele momento, exposta, longe de seu refúgio.   A barata, decerto vinda do ralo do banheiro, passa rente ao rodapé da parede que está à esquerda da porta de entrada do boteco do Sinfrônio e vê, cerca de um metro e meio à sua esquerda – distância enorme para uma barata, que mede nem três centímetros, mas de fácil transposição, porque elas são ágeis –, o que ela supõe ser um muro coberto de azulejos brancos, mas que, na verdade, é apenas o balcão. Enfileirados em disposição paralela a esse muro de azulejos brancos mas nem tanto, porque a gordura neles acumulada os turva, ela se espanta com os enormes mastros de metal que culminam em superfícies negras, achatadas e redondas, ou seja, os bancos, sobre as quais se empoleiram homens e mulheres, elas em menor número, em trajes rotos, calçando, eles, tênis e sapatos surrados, e elas, sandálias de salto alto, vermelhas em sua maioria.   Se o olhar da barata acompanhar o balcão até onde termina, ou melhor, faz a curva, mais adiante, em ângulo de 90, ela verá, pousada em seu cume, o que lhe parecerá uma caixa de vidro dentro da qual, colocadas lado a lado, estão bandejas de alumínio, uma contendo chouriço, a outra torresmo, a seguinte jiló recheado com carne moída e a última com um pernil de arestas aparadas, do qual já foram tiradas, para fazer sanduíche ou para servir em porções, suculentas lascas. Na verdade, a barata não sabe o que são essas comidas, tampouco como se chamam, ela apenas gosta de petiscá-las. O paladar da barata aceita um espectro bastante amplo de sabores, porque além de chouriço, torresmo, jiló e pernil, ela também gosta de doces em geral e dos detritos acumulados no ralo de onde ela veio, indistintamente. Seguindo em frente a passos rápidos mas tentando manter a discrição, a barata vai se aproximando da porta de entrada. O boteco do Sinfrônio, afinal, não é tão grande, é o que ela começa a considerar. Lançando um olhar em profundidade para a esquerda, ela verá o que há depois que o balcão faz a curva. Nada estimulante: outra fileira de mastros sobrepostos pelas superfícies negras, achatadas e redondas, e sobre elas mais pessoas – esses seres que a barata, desde criança, sabe que deve temer. E logo ali, agora mais perto, mas ainda a uma altura que ela sabe que será difícil alcançar sem ser vista, a estufa, que no entendimento de uma barata é apenas uma caixa de vidro, contendo os maravilhosos acepipes. A lateral do balcão que agora a barata vê é menor, ou seja, conforme dedução a que ela mesma chegou, o boteco do Sinfrônio tem formato retangular. Saindo da porta do banheiro, que fica ao fundo, percorre-se o comprimento do espaço. O balcão, a barata já intui, faz o mesmo desenho que a planta baixa do recinto, que deve ter cinco por três metros. Por detrás do balcão, a barata verá duas ou três pessoas uniformizadas, servindo às outras pessoas que estão sentadas nos bancos. A barata hesita. Ela não sabe se arremete em direção ao muro de azulejos engordurados e tenta alcançar a estufa de petiscos causando a ojeriza geral ou se volta para o banheiro e espera oportunidade melhor. O boteco do Sinfrônio fica aberto madrugada adentro e o movimento por lá quase nunca arrefece, sempre há pessoas indo e vindo, taxistas, porteiros, prostitutas, boêmios inveterados, cafetões, vendedores ambulantes, enfim, gente que não faz muito caso por conta de uma barata se esgueirando sorrateira pelos cantos de um boteco. Somente pouco antes de o céu começar a clarear, por volta das cinco da madrugada, é que Sinfrônio e seus funcionários param de servir e avisam aos últimos clientes que vão fechar as portas. Será o momento ideal para a barata tentar alcançar a estufa, mas ela não sabe disso.

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