Uma avó fora dos padrões

À espera do nascimento da primeira neta, Susan Sarandon interpreta a avó de Melissa McCarthy, na comédia “Tammy”

iG Minas Gerais | Dave Itzkoff |

Susan: “A minha base é mais ampla em termos de personagens mesmo, então não é difícil para o público me enxergar 
envelhecida e mudada”
JAKE CHESSUM
Susan: “A minha base é mais ampla em termos de personagens mesmo, então não é difícil para o público me enxergar envelhecida e mudada”

Nova York. Susan Sarandon ficou um pouco decepcionada por não poder comparecer ao Burning Man. Ela participou do festival da contracultura realizado no deserto de Nevada pela primeira vez em 2013, e se sentiu segura e invisível. “Há sempre várias garotas de corpos esculturais andando para lá e para cá, sem roupa, quem ia me notar?” E pensou até em levar parte das cinzas de Timothy Leary na visita deste ano.

Em vez disso, depois de julho – mês de estreia da comédia no qual interpreta o (improvável) papel de avó de Melissa McCarthy, “Tammy” – vai tirar umas semanas de férias para se preparar para o nascimento da neta de verdade, já que sua filha, Eva Amurri Martino, está grávida.

A chegada de uma nova vida é um “evento tipo ficção científica”, disse ela recentemente – e essa, especificamente, tem um impacto fundamental na visão que a atriz de 67 anos tem de si mesma, coincidindo com uma época em que vem interpretando várias personagens desleixadas, meio malucas e principalmente mais velhas.

Entretanto, com uma carreira que inclui personagens como uma prostituta, uma freira e uma fora-da-lei feminista, além de anos de ativismo polêmico e a “defesa do tênis de mesa” atrás dos bastidores, Susan já tem uma perspectiva suficientemente radical de si mesma – e radicalmente diferente daquela como o mundo a vê.

“Nunca fui magra nem carismática o suficiente para ser uma atriz tipo Julia Roberts, que consegue vender um filme pela personalidade; a minha base é mais ampla em termos de personagens mesmo, então não é difícil para o público me enxergar envelhecida e mudada”.

“Mas, sim, talvez ‘Tammy’ force um pouco a barra”, admite.

Na comédia, Susan é Pearl, uma matriarca beberrona e louca por homens muito pior que a personagem-título de Melissa McCarthy.

“A gente queria alguém que estivesse naquela faixa de idade certa, mas que ainda tivesse um grande apelo sexual”, explica a atriz, que escreveu o roteiro ao lado do marido, Ben Falcone, que também dirigiu o filme. “Ficava repetindo: ‘Alguém como a Susan Sarandon, mas mais velha’”.

No fim, foi a própria que encarnou a personagem, graças a uma peruca grisalha e outros truques para envelhecer (como as próteses para simular tornozelos inchados).

“Basicamente dissemos o seguinte: ‘Olha, você é muito gostosona, cheia de vida e com jeito de jovem; temos que envelhecê-la’. Não deixa de ser um elogio, por mais bizarro que pareça”, explicou Falcone.

“Foi meio que, tivemos que pegar tudo aquilo, todas as partes do corpo dela, e destruir”, completou Melissa.

Susan, que chegou ao ponto de pôr grãos de pimenta no sapato para reproduzir o andar desconfortável de uma senhora de idade, achou “muito libertador” interpretar alguém “tendo que destacar cada defeito e contar com iluminação ruim sempre que possível”.

“Durante um tempão estive num ritmo mórbido; todas as personagens que eu interpretava ajudavam alguém a morrer ou morriam”.

“Sem dúvida, é mais divertido essa fase de mulheres esquisitas, alcoólatras e drogadas”.

Nessa categoria estão incluídas a cinebiografia de Errol Flynn, “The Last of Robin Hood”, que estreia nos EUA em 29 de agosto, na qual interpreta uma mãe malvada com prótese em uma das pernas, e a comédia “Ping Pong Summer”, na qual encarna a mentora excêntrica de um adolescente.

Essa série de personagens tão desapegadas da aparência pode até fazer o público questionar se é só esse tipo de papel que lhe restou ou se faz parte do esforço de se reinventar após a separação de Tim Robbins, ocorrida há cinco ano, mas a atriz garante que não foi nada proposital (nem deprimente).

“Estou sempre procurando coisas que me assustem, me metam medo; não as recomendo necessariamente na vida particular, mas na profissional fazem muito bem”.

E garante que sua visão de mundo é o oposto de paranoica, a que ela brinca chamando de “pronoica”.

“Acho que o universo está sempre conspirando a meu favor, de maneira que tudo o que poderia ser considerado ruim acaba se tornando algo positivo e útil”.

“Um dos meus maiores talentos é ser capaz de mudar meu caminho quando alguma coisa que não planejei aparece na minha frente”.

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