Retomada sem choro

iG Minas Gerais |

Tudo voltou a ser como antes. A Copa acabou. Pelo menos para nós, nada interessados na disputa do terceiro lugar. As cidades vão retomando suas rotinas. O chororô vai passar, a ressaca moral também. Em algum momento passa. Fica a vergonha. Essa, sim, será marca cravada na história do futebol. Quem viu não vai esquecer. E as próximas gerações serão, certamente, lembradas sobre o dia 8 de julho de 2014. Dia da humilhação. Dia em que a seleção pentacampeã perdeu para a Alemanha. E, se qualquer derrota em uma semifinal de Copa do Mundo já é amarga, imagina com um placar de 7 a 1.  Nem os mais pessimistas esperavam viver esse pesadelo, justamente no Brasil. Era o inacreditável diante dos olhos de milhões de brasileiros. Para os que vivem intensamente os prazeres do futebol, então, o choque foi maior. Não pela derrota, mas pela forma como a seleção foi derrotada. O que ninguém ousa é contestar a vitória dos alemães: justa aos olhos do mundo inteiro. Venceu quem mereceu, quem jogou bola, quem deu show, quem mostrou ter trabalhado para isso. Perdeu o futebol medíocre, sem marcação, sem experiência, sem inteligência, sem craques de peso, sem grupo coeso. Lá se foi a oportunidade de fazer história.  “A vida segue”, disse o treinador Luiz Felipe Scolari, o Felipão. Para ele e sua comissão técnica, segue o destino como se nada tivesse acontecido, apesar de reconhecerem a derrota. E certamente seguirá... Mas que venha uma nova proposta para o futebol brasileiro, que precisa – urgentemente – de uma reinvenção.  É necessário menos soberba nesse setor. Menos cartolas. Felipão não carrega a culpa de forma solitária. São muitos os culpados. Há muito que avançar em um país onde orgulho e vaidade afastam novas experiências de dirigentes obsoletos. No lugar onde o futebol atrai multidões, o esporte também se apresenta como válvula de escape para tantos problemas sociais. Pior, ele é objeto de uso político. De forma totalmente indevida.  Agora, que a Copa acabou, vou continuar na torcida. Vou torcer por ingressos mais baratos. Muitos fanáticos – a turma dos estaduais, a tropa do Brasileirão – foram afastados dos estádios nesse Mundial. A maioria da “massa” não teve como pagar os preços altos cobrados pela Fifa. Houve ainda quem conseguiu pagar, mas não pôde fazer plantão madrugada afora na internet na luta por um tíquete com chip. Torço para que o Luiz Gustavo – personagem de uma matéria que vi na televisão ou li em algum jornal, não sei ao certo – consiga em breve financiar um novo carro. É que o estagiário do curso de direito vendeu o dele para comprar ingressos para os jogos da Copa e passagens aéreas. Também estarei atenta ao pequeno João. Morador do meu bairro que, pela primeira vez, foi ao Mineirão. Justo na terça-feira passada. O pai me disse que o menino chorou até a quarta-feira chegar. Espero que não chore diante do Brasil que vai encontrar pela frente. Estarei de olho na Érika, uma jovem bonita de longos cabelos que circulou em camarote VIP junto com famosos e candidatos ao estrelato. Torço para que um dia ela goste de futebol, ou pelo menos entenda o que ele representa culturalmente para o seu país. Que ela não se preocupe só com a bebida e com os petiscos servidos da festa.  Na verdade, quero ver outubro chegar. Até lá, torço para que o povo brasileiro foque o assunto certo: as eleições. Desejo imensamente que mostrem nas urnas, mais ainda do que nas ruas, o desejo de uma vida melhor. O ano de Copa também é ano de voto. Tempo de botar pra fora o grito preso na garganta. Se não deu nos estádios, temos que golear nas urnas. A rotina será retomada, e podemos fazer algo por nós mesmos. 

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