Chegou a hora: o Brasil precisa de um técnico estrangeiro

Obsoletos como a maioria de nossos treinadores, dirigentes da CBF querem professor doméstico, mas a seleção precisa de um revolucionário como nos anos 50

iG Minas Gerais | *GABRIEL PAZINI |

Húngaro Béla Guttmann foi um dos responsáveis pela revolução tática que ajudou o Brasil nos anos 50
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Húngaro Béla Guttmann foi um dos responsáveis pela revolução tática que ajudou o Brasil nos anos 50

Felipão não é o único culpado, mas é um dos responsáveis pela maior vergonha da história do futebol brasileiro. Além de uma reestruturação geral fora e dentro de campo, é necessária a mudança de treinador, fato que reabre a discussão sobre um técnico de fora do Brasil comandando a seleção canarinho. No cenário atual, com um Campeonato Brasileiro fraco técnica e taticamente e cheio de treinadores desatualizados, nenhum professor tupiniquim deixa os torcedores seguros, e os estrangeiros ganham força em discussões.

A falta de opções domésticas é uma realidade. Nenhum nome empolga e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) cogita Tite, Muricy e Luxemburgo para a vaga de Scolari. Dentre esses nomes, Tite é o mais atualizado taticamente, passou alguns meses na Europa se modernizando e compreende as variações táticas, mas não transmite muita confiabilidade. Muricy, por sua vez, tem mostrado limitação tática em seus últimos trabalhos e precisa se modernizar. Já Luxemburgo é brincadeira de mal gosto. Trata-se de um ex-treinador em atividade, que foi muito mal em seus últimos trabalhos e sequer tem espaço nos clubes brasileiros.

No entanto, mesmo com a falta de opções domésticas, a CBF pela soberba e orgulho ultrapassados, parece não querer um técnico estrangeiro. Os dirigentes são tão obsoletos quanto a maior parte dos nossos treinadores. E ainda assim, existe quem defenda a postura ceebefiana. Os contrários a ideia de um técnico de fora do País comandando o escrete canarinho alegam que nunca um técnico estrangeiro foi campeão nacional no Brasil, mas a verdade é que uma transformação vital para o futebol tupiniquim, que ajudou a seleção a ser o que é hoje, veio da Europa.

Da Hungria para o Brasil

Nos anos 50, a Hungria de Puskás e Kocsis se tornou letal quando aliou a excelência técnica a uma revolução tática. O tradicional WM virou o 4-2-4, esquema no qual os centroavantes voltavam ao meio-campo e confundiam a marcação dos adversários, enquanto os laterais ganhavam mais espaço. Foi a partir dessa mudança no sistema de jogo, que a Hungria se tornou um time imbatível. Conquistou as Olimpíadas de 1952, venceu a Itália no Estádio Olímpico e a Inglaterra em Wembley. Os dois resultados marcaram os rivais. A Itália mudou a legislação para a contratação de jogadores estrangeiros - apenas descendentes passaram a ter o direito de defender clubes da Serie A - enquanto o English Team, após ser derrotado por uma seleção da Europa continental em casa pela primeira vez, mudou completamente o seu futebol. As mudanças, posteriormente, deram resultados com o título da Copa em 1966 e o crescimento dos clubes locais no cenário europeu. A Máquina Húngara, no entanto, acabou perdendo o título máximo no Milagre de Berna, no dia 4 de julho de 1954, com a derrota para a Alemanha.

E a revolução tática aliada à excelência técnica que marcou a histórica Hungria nos anos 50 teve Béla Guttmann como um de seus criadores. O treinador, que é tido como um dos melhores da história, foi um dos responsáveis pela transformação do esquema WM no 4-2-4. Guttmann foi técnico do Honvéd, equipe que tinha Puskás e era a base da Máquina Húngara, e comandou o time em uma excursão no Brasil. Depois, em 1957, ele assumiu a comissão técnica do São Paulo e foi o responsável por introduzir a revolução tática do 4-2-4 no futebol brasileiro. Ele conquistou o Campeonato Paulista e ficou no clube até 1958. Seu auxiliar era Vicente Feola, que absorveu seus conhecimentos e levou o esquema tático à seleção brasileira, quando assumiu o time em maio de 1958. Assim como na Hungria, a união da excelência técnica de Pelé, Garrincha, Didi e outros craques com a revolução tática fez do Brasil um time extraordinário. Ali começou a hegemonia tupiniquim, com três títulos da Copa do Mundo conquistadas em quatro disputadas entre os anos dourados de 1958 e 1970 e a mudança de patamar do futebol brasileiro no cenário internacional.

Agora, 56 anos depois, chegou a hora de o futebol brasileiro ser comandado por um treinador estrangeiro e passar por uma nova e necessária revolução tática. Excelentes opções não faltam e o vexame contra a Alemanha não pode ter sido em vão.

*com supervisão de Leandro Cabido

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