Chico

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Encontrado na seção de pequenos anúncios, trocado por um rádio e um cobertor, foi parar na nossa casa. Olhos redondos, pelo marrom e uma vivacidade impressionante. Assim definiria o Chico, nosso macaco-prego. Amor à primeira vista? Não; talvez uma leve simpatia. Na verdade, mais que simpatia, respeito. Sim, o bicho com aquela fileira de dentes me colocava em meu lugar, de preferência bem longe dele.   O macaco tinha lá suas esquisitices, mas morder todas as mulheres e crianças que passavam em seu caminho era uma atitude um tanto quanto preconceituosa. Durante os quase dez anos em que viveu em nossa casa, Chico fez história. Inteligentíssimo, deixava-nos perplexos com suas atitudes demasiado humanas. Observava tudo e fazia igual. De tanto ver o Seu Pedro trabalhando no jardim, nosso macaco aprendeu a arrancar flores, ajeitar a terra e replantá-las em outro local. Certa vez, um marceneiro foi colocar uma janela no alto de nossa casa. Enquanto trabalhava, Chico, embaixo, observava tudo. Meio-dia, hora de o marceneiro sair para o almoço. Meio-dia e cinco – hora de o Chico dar continuidade ao serviço. Não teve dúvidas: com prego e martelo na mão subiu a escadinha de madeira. Como sua mira não era das melhores, em poucas marteladas quebrou todos os vidros da janela. Durante muitos anos, ficou preso a um arame interligado às árvores próximas à capela. Seu campo de atuação era enorme. Pulava de um canto ao outro divertindo as pessoas – adorava ser o centro das atenções. Loucura era quando fugia. Medidas urgentes deveriam ser tomadas: fechar portas e janelas da casa; avisar todos de sua fuga, principalmente mulheres e crianças. Entrava em pânico ao saber de suas escapulidas, chegando inclusive a me trancar no quarto. Não era para menos, por duas vezes fui mordida por ele, e mordida de macaco não dá para esquecer. Após um longo feriado no sítio de um tio, regressamos a nossa casa e a encontramos um tanto quanto caótica. Ladrão! Foi nosso primeiro pressentimento. A casa estava literalmente pelo avesso. Todas as garrafas de uísque e vinho da adega estavam quebradas, e a bebida, derramada no chão. Camas reviradas, utensílios domésticos dispersos pela casa, armários abertos, açucareiro no telhado, roupas espalhadas. E isso era só o começo. Ao entrarmos no banheiro de minha mãe, o caos era total. Remédios no chão, sal de frutas derramado na pia. Mistério. Mistério que não demorou muito a ser desvendado. Assim que o vigia soube da nossa chegada, procurou minha mãe para contar o ocorrido: “A culpa é do macaco, dona Glorinha. O bicho bebeu e ficou doido. Quebrou tudo, e eu não tive como prendê-lo”. Que o Chico gostava de batida, nós já sabíamos, principalmente as que continham leite. Mas uísque cowboy? Com claros sintomas alcoólicos, no escritório, desfazia com indivisível prazer uma prateleira de livros. Quando minha avó morreu, mamãe entrou em depressão. Nessa mesma época, meu irmão mais velho prestava vestibular. E foi nesse clima de tristeza e ansiedade que o Chico mais uma vez fugiu. Foi encontrado desmaiado debaixo do pé de manga, e nada neste mundo o fazia despertar de seu sono inconsciente e profundo. – Já esturricou no fio de alta-tensão, e não morreu, e agora? O que será que andou aprontando desta vez? – pensou minha mãe, preocupada em esconder o macaco desmaiado do meu irmão, que, fazendo provas de vestibular, não poderia ter nenhum tipo de contrariedade. Também esse mistério não demorou a ser desvendado. No banheiro de meus pais estava a resposta: remédios espalhados, frasco de sal de frutas aberto, toalhas no chão e, “desaparecidos” do vidrinho, os responsáveis pelo desfalecimento. O macaco havia tomado uma overdose de tranquilizantes, os tais que minha mãe estava tomando para curar a depressão. Nós o embrulhamos numa coberta e corremos para o veterinário. No banco de espera, observávamos apreensivas o macaco desacordado. De repente, surgido do nada, um enorme dog alemão despontou na sala. Nessa hora, minha mãe quase teve seu quinto filho, e o Chico, saindo do estado alfa e de coma profundo em que se encontrava, deu um monumental salto, indo se grudar nos compridos fios pendurados ao lustre. Gritando muito, balançava de um lado ao outro causando um verdadeiro rebu na clínica. O veterinário saiu correndo de sua sala para ver o que estava acontecendo. O dono do cachorro não conseguia segurá-lo. A confusão foi tanta que juntou gente na rua para ver a insólita e divertida cena. Conter o cachorrão até que foi fácil, complicado mesmo foi sossegar o macaco, que, após o “ressuscitamento”, apareceu mais disposto do que antes. Disposto a gritar, correr, pular, morder e a nos enlouquecer, claro! Também o Chico fez parte de minha história. Crônica publicada em 26/6/2007. Laura Medioli encontra-se de férias.

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