Quadrinista mineira vai estar no livro do MnQ

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Bianca publica a série Anna Bolenna aos domingos no “Super Notícia”
Bianca
Bianca publica a série Anna Bolenna aos domingos no “Super Notícia”

Para a blogueira Mariamma Fonseca, a enorme diversidade dos trabalhos publicados por ela em seu blog, Lady’s Comics, além daqueles divulgados na página Meninas nos Quadrinhos (MnQ) no Facebook, deixa uma coisa bem clara: não existe diferença entre o potencial e o trabalho de homens e mulheres nos quadrinhos. O problema está em outro lugar.

“Desenho não tem sexo. A diferenciação está no público. No olhar do leitor e dos homens que não entendem um determinado momento ou emoção de uma personagem feminina”, ela opina. Que o diga a quadrinista belo-horizontina Bianca. Uma das 24 selecionadas para o livro do MnQ, ela começou a carreira no início de 2013 publicando a série de humor erótico “Ninfomanicômio” no Facebook. O resultado foi um pouco maior que o esperado.

“Chegaram a me perguntar se eu fazia programa”, ela lembra. “Porque eu era uma mulher falando sobre um tabu, a sexualidade feminina. Se fosse homem, seria muito mais tolerado”, critica. A página foi denunciada e Bianca chegou a ser banida do Facebook. “A pessoa que denunciou me mandou uma mensagem falando que eu estava fazendo apologia ao sexo. Um, meu traço é totalmente tosco, nada sexualizado. E dois, o que há de errado com sexo?”, questiona.

Com a dor de cabeça, a quadrinista restringiu “Ninfomanicômio” a revistas e zines que ela vende em feiras. Sua presença online ficou dedicada à série “Anna Bolenna” que, com o sucesso, passou a ser publicada todos os domingos no jornal “Super Notícia”.

Na série, a estudante de artes visuais da Escola de Belas Artes da UFMG adota um tom mais íntimo e autoral. As tirinhas vão da vida familiar atribulada a um pé na bunda. “Tudo que eu sentia eu traduzia em quadrinhos e as pessoas começaram a se identificar e compartilhar. Algumas agradecem e falam que isso é a vida delas também, se sentem bem em saber que não é só elas que passam por aquilo”, desabafa.

E o feedback não tem se resumido a comentários e compartilhamentos. Bolsista na universidade, Bianca já pediu ajuda online para comprar materiais e até já conseguiu uma mesa de desenho. É com a ajuda da bolsa que ela comparece a feiras de quadrinhos, como a mostra “Lápis, Papel e TPM”, em Sorocaba, cidade do interior de São Paulo, onde participa de debates e vende seu trabalho.

Foi numa delas que a quadrinista conheceu outras ilustradoras de Belo Horizonte, com quem fundou o coletivo Zina. “A gente resolveu se unir para ter uma força maior e divulgar o trabalho para outros lugares. Quando tem feira, uma vai e leva o trabalho das outras”, conta Bianca. O Zina ainda produz um fanzine independente e tem uma página no Facebook.

Com menos de um ano e meio de carreira, Bianca já se tornou referência para alunas do curso de HQ de Ricardo Takamoto, onde ela estudou. “Fico feliz de elas encontrarem referências femininas, e não só de homens, o que não vai deixá-las se sentirem intimidadas como eu fui”, revela.

Para a quadrinista, essa é a sua forma de mobilização. “Já me perguntaram por que eu faço poemas bobinhos, e não política: porque tem gente que já faz isso muito bem”, defende. É o mesmo motivo pelo qual ela não sente necessidade de panfletar temas feministas em suas criações. “Existe uma pressãozinha e eu já me senti culpada por fazer poemas enquanto lutam pelo feminismo. Mas desencanei porque as mulheres têm uma liberdade para criar muito grande hoje, e a gente tem que fazer o que está sentindo, independente do que as pessoas acham”, resume.

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