Fortes traços de Luluzinha

Projetos online de financiamento coletivo trazem à tona a presença e a representação feminina no universo das HQs

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Mineira. Trabalho da belo-horizontina Bianca está no livro do MnQ
bianca / divulgação
Mineira. Trabalho da belo-horizontina Bianca está no livro do MnQ

Apesar de ser um dos universos produtores de conteúdo mais prolíficos da cultura pop hoje, os quadrinhos ainda são bastante associados pelo senso comum a super-heróis. E seguindo a lógica do clube do Bolinha, heróis são coisa de meninos, que criam e leem essas histórias.

São muitos os equívocos presentes nesse raciocínio. Um: quadrinhos não se resumem a super-heróis. Dois: nem só garotos se interessam por heróis. E acima de tudo, três: quadrinho não é só coisa de menino.

É para mudar essa percepção que a carioca Roberta Araujo e a baiana radicada em Belo Horizonte Mariamma Fonseca criaram dois projetos na internet. A primeira é a responsável pelo Menina nos Quadrinhos (MnQ), página do Facebook que, desde 2012, publica a cada semana cerca de 30 tirinhas e trabalhos de quadrinistas brasileiras, com uma visualização média de 5.000 pessoas cada. A segunda idealizou em 2010 o blog Lady’s Comics, que realiza não só um trabalho de divulgação, mas também jornalístico e de pesquisa sobre a presença feminina nos quadrinhos.

“Trabalhar com quadrinhos é difícil, não importa o sexo. O problema diferente é que, no caso das mulheres, as pessoas sempre acham que tem que ser tudo fofinho e, se ela foge um pouco do ‘universo da TPM’, já rola um estranhamento”, defende Araujo. Fonseca, por sua vez, lembra que existem muitas garotas fazendo quadrinhos bem além da temática luluzinha, com universos grotescos, de porrada, terror – e até super-heróis, como a brasileira Adriana Melo, primeira mulher a desenhar o Homem-Aranha.

No caso dos heróis, o único desafio é a representação sexualizada das mulheres nas HQs, o que cria um obstáculo para artistas femininas. “Os quadrinhos foram por muito tempo um meio de militância política e são um ótimo meio para abordar temas como o feminismo. Eu mesma gosto mais quando existe um viés mais politizado e uma ideologia por trás, mas as mulheres não fazem só isso”, explica Fonseca.

Campanhas. Coincidentemente, com a repercussão dos projetos, as duas iniciaram campanhas de financiamento coletivo quase simultâneas no site Catarse (veja os links no box). Araujo deseja lançar dois livros de 84 páginas compilando o trabalho de 24 quadrinistas que já passaram pelo MnQ nesses dois anos. E Fonseca pretende realizar, no próximo dia 25 de outubro, o 1º Encontro Lady’s Comics, com o tema “Transgredindo a Representação Feminina nos Quadrinhos”, que vai trazer dez convidados de todo o Brasil a Belo Horizonte para uma discussão inédita no país sobre a representação e a presença da mulher nesse universo.

“O objetivo do blog é a perpetuação da memória das quadrinistas, para que se conheça e saiba lá na frente quem está fazendo esse tipo de trabalho no Brasil”, afirma Fonseca. Jornalista de formação, o interesse dela por quadrinhos vem da infância no interior da Bahia, quando os únicos trabalhos a que tinha acesso eram tirinhas de Laerte e Angeli nos jornais.

Na faculdade, ela viu que as HQs iam bem além da “Turma da Mônica” e resolveu fazer um curso na Casa de Quadrinhos. “Mas eu não conseguia ter nenhuma referência porque os trabalhos que me apresentavam não era o que me interessava”, lembra a blogueira.

Quando ela perguntava sobre mulheres quadrinistas, a maioria dos professores não sabia responder. “Foi quando decidi correr atrás eu mesma. E como não achei uma referência na internet, decidi criar um lugar online para agrupar tudo que eu pesquisasse”, explica.

Com a ajuda de amigas e colaboradoras, o Lady’s Comics já se tornou até referência bibliográfica para dissertação de mestrado na USP. O Encontro em outubro pretende ampliar e explorar mais a fundo a discussão de uma forma que o diálogo online não permite. “Queremos entender o que está acontecendo no Brasil e por que as quadrinistas ainda não são tão publicadas pelas grandes editoras quanto os homens, e as personagens femininas não são representadas tão fielmente no país”, propõe.

Trabalho para ser publicado é o que não falta, e a internet potencializou muito isso – que o diga Roberta Araujo. Estudante do oitavo período do curso de história da arte na Escola de Belas Artes da UFRJ, ela criou a página do MnQ no Facebook para ter um espaço de discussão e divulgação, já que a academia ainda não reconhece os quadrinhos como arte.

O sucesso foi tamanho que a dificuldade acabou sendo escolher apenas 24 nomes entre mais de cem para publicação no livro. “Na página, publico tudo que recebo porque não me acho ninguém para dizer o que é bom ou ruim”, ela afirma. O critério para o livro acabou sendo as artistas mais curtidas e compartilhadas na página. Além delas, Araujo vai escolher 20 tirinhas enviadas pelas colaboradoras da campanha no Catarse que quiserem participar do livro. “Meu plano é fazer disso depois uma revista trimestral, ou mensal, quem sabe”, ela sonha.

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