Depressão pós-parto ainda é um desafio para a medicina

Mães chegam a imaginar que estão machucando seus próprios filhos

iG Minas Gerais | Pam Belluck |

Superação. Jeanne Marie Johnson, 35, teve uma gravidez feliz, mas começou a ter visões logo após o nascimento de sua filha, Pearl
Leah Nash/The New York Times
Superação. Jeanne Marie Johnson, 35, teve uma gravidez feliz, mas começou a ter visões logo após o nascimento de sua filha, Pearl

Nova York, EUA. A depressão pós-parto nem sempre é pós-parto. Nem mesmo é sempre uma depressão. Um crescente corpo de pesquisa vem mudando a própria definição da doença mental materna, mostrando que ela é mais comum e variada do que se pensava.  

Segundo cientistas, novas descobertas contradizem a antiga visão de que os sintomas começam apenas algumas semanas após o parto. Na verdade, a depressão muitas vezes começa durante a gravidez, dizem os pesquisadores, e pode se desenvolver em qualquer momento no primeiro ano após o nascimento do bebê.

Estudos recentes também mostraram que a gama de problemas enfrentados pela mulher é mais ampla do que se imaginava anteriormente. No ano após o parto, pelo menos uma em cada oito (e até uma em cada cinco) mulheres desenvolve sintomas de depressão, ansiedade, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo ou uma combinação deles. Além disso, é muito difícil prever quem pode desenvolver esses problemas. E em muitos casos parecem surgir do nada.

Jeanne Marie Johnson, 35, de Portland, nos Estados Unidos, teve uma gravidez feliz, mas começou a ter visões logo após o nascimento de sua filha, Pearl. Ela contou que se imaginava sufocando a filha enquanto dava de mamar, jogando-a na frente de um ônibus ou “arremessando-a contra a parede”.

Ela se disse horrorizada com a ideia de machucar seu bebê, e não foi em frente com os atos que imaginou. Mesmo assim, enquanto observava um rinque de patinação num shopping, “imaginei que se a deixasse cair pelo vão, ela se esborracharia como uma melancia”, afirmou.

Pensamento. A maioria das mulheres com tais “pensamentos intrusivos”, como os especialistas os chamam, nunca machuca seus filhos. Algumas tomam medidas extremas para proteger seus bebês. Uma mulher “passou meses descendo as escadas sentada porque se imaginava jogando o bebê escada abaixo”, disse Wendy N. Davis, diretora executiva da Postpartum Support International.

Mas estudos indicam que o estresse materno pode minar a capacidade feminina de se relacionar ou cuidar de seus filhos, e que a saúde emocional e cognitiva da criança pode ser afetada.

Complexo. Uma complexa interação de genes, estresse e hormônios causa a doença mental materna. “Os hormônios aumentam em mais de cem vezes na gravidez”, afirmou Margaret Spinelli, diretora do programa feminino no departamento de psiquiatria da Universidade de Columbia. Após o parto, eles despencam, numa montanha russa que pode “perturbar a química do cérebro”.

Algumas mulheres são geneticamente predispostas a reagir intensamente a mudanças hormonais. Outras são mais sensíveis a estresses como dificuldades familiares, finanças, o parto em si e a maternidade.

A depressão durante a gravidez pode não ser percebida porque os sintomas, como dificuldade para dormir e mudanças de humor, também ocorrem em mulheres grávidas que não estão deprimidas. E os médicos são historicamente ensinados que “as mulheres não ficam deprimidas durante a gravidez porque estão felizes”, afirmou Katherine L. Wisner, professora de psiquiatria e obstetrícia na Universidade Northwestern.

Num estudo de 2013, a maior análise de mulheres por depressão pós-parto até então, Katherine e colegas descobriram que 14% de 10 mil mulheres tiveram depressão de quatro a seis semanas após o nascimento, mas que para um terço delas, a depressão começou durante a gravidez.

Psiquiátrico

Caso. As mães podem ter diversos problemas psiquiátricos de uma só vez. Em um estudo, dois terços das mulheres com depressão também demonstraram ansiedade; quase um quarto apresentou distúrbio bipolar.

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