A humilhação vai além do campo, o futebol brasileiro precisa mudar

Não é apenas tática, técnica, emocional e erros no campo, a mancha também passa pela falta de organização, planejamento, descaso com categorias de base e amadorismo da CBF

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

Já passou da hora do futebol brasileiro ter a sua revolução. Tudo precisa mudar
Reprodução/Facebook
Já passou da hora do futebol brasileiro ter a sua revolução. Tudo precisa mudar

A maior derrota, vergonha e humilhação da história da seleção brasileira é fruto de vários erros. Passa pelos equívocos de Felipão na escalação, erros táticos, falta de treinamentos, despreparo emocional e outras falhas dentro de campo, mas também passa pelos erros fora das quatro linhas. O amadorismo da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), a falta de organização e planejamento e o descaso com as categorias de base também são culpados pela goleada que, um dia depois, ainda parece um pesadelo, algo irreal, que talvez nunca consigamos acreditar que realmente existiu.

O futebol brasileiro está atrasado. Em vários pontos. E um deles é que ainda estamos na era do futebol de resultado, tanto nos clubes quanto na seleção. Se o escrete canarinho tivesse vencido a Alemanha, ninguém estaria apontando os erros da seleção e tudo estaria muito bom. Aqueles que apontam os erros mesmo com o time vencendo, como fiz após todas as vitórias na Copa do Mundo, são tidos como vira-latas, como se jornalista devesse ser torcedor.

Fui contrário a demissão de Mano Menezes por isso. Quando o treinador começava a achar um caminho e melhorar o time, foi demitido. Em seu lugar assumiu Felipão, que vinha de péssimos trabalhos em Chelsea, Palmeiras e de uma estadia na Ásia. Histórico e vencedor, Scolari é, sem sombra de dúvidas, mas está ultrapassado. Isso é mais do que nítido e óbvio. No entanto, no futebol de resultado que é feito no Brasil, o título da Copa das Confederações o fez intocável.

Vale destacar que o campeão da Copa das Confederações NUNCA venceu a Copa do Mundo no ano seguinte. O torneio é ilusório e passa a falsa sensação de que a seleção está pronta. Foi assim em 2005, 2009 e 2013. Após o título contra a Espanha, ponderei que fazia anos que não via o Brasil jogar bem como jogou, mas que a euforia deveria ser contida, visto que o escrete canarinho tinha feito um torneio ruim, jogando mal a maioria das partidas. Os mesmos erros da competição de 2013 foram vistos em 2014. Nada foi corrigido porque a seleção deitou em berço esplêndido, blindada por conquistar um torneio que não reflete o nível de uma Copa do Mundo, com uma grande vitória sobre o time tido como o melhor do planeta.

A Alemanha, eliminada na semifinal das Copas de 2006 e 2010, vice da Euro 2008 e eliminada nas semifinais da Euro 2012, manteve a base do time e o técnico Joachim Löw, apesar de todas as críticas. O trabalho é de longo prazo, feito inclusive nas categorias de base, e começou faz 12 anos, após a perda do título mundial justamente para o escrete canarinho, no Japão. No Brasil, trocaríamos o treinador e mudaríamos o time inteiro. Na Alemanha, além da permanência de Löw, os jogadores foram mantidos. Dos14 alemães que humilharam a seleção, 10 estavam em campo nas eliminações para a Espanha em 2010 e 2012.

O Barcelona histórico, que encantou o mundo, é outro exemplo. O trabalho de mudança de mentalidade e categorias de base foi iniciado com Rinus Michels e Cruyff na década de 70 (!) e foi sendo adaptado ao longo dos anos. Cruyff, nos anos 90, foi treinador da equipe e fez história. Guardiola foi outro ex-jogador que fez história no Barça também como técnico. Os Blaugranas trabalham as categorias de base com todo um planejamento voltado para o time profissional. No Brasil, é totalmente o contrário.

Outra questão é a soberba. Ainda acreditamos que temos o melhor futebol do mundo, os melhores jogadores e o melhor campeonato. Essa época passou. E faz tempo. Muito tempo.

E esses erros não começaram agora. Começaram lá atrás, com Ricardo Teixeira, que deixou a herança para Marin e Del Nero, que continuam tratando o futebol brasileiro com amadorismo. A CBF, entidade que comanda o futebol mais vencedor do planeta, é amadora. O Bom Senso FC - tão criticado por alguns atrasados como a corja ceebefiana - quer, como tantos outros, corrigir esses equívocos.

O Campeonato Brasileiro é fraco. O nível técnico e tático é ridículo. Uma coisa é o torneio ser disputado e equilibrado, outra é a qualidade da competição. O calendário é igualmente ridículo e mal-feito. Por dinheiro, no Brasil, joga-se o futebol de novela. A mudança que já se fazia necessária, é urgente. Marin, Del Nero e companhia precisam sair. O calendário precisa mudar. O futebol tupiniquim precisa evoluir.

Além da mudança do calendário, é necessária uma mudança na mentalidade e cultura do futebol brasileiro. O planejamento e organização que não existem, começam nas categorias de base, tratadas com tanto descaso pela CBF.

A entidade não investe em centros de treinamento, nem na base dos clubes. E os times estão entregues aos empresários. Um dos grandes problemas da seleção na Copa foi a falta de um centroavante. Desde o ano passado é comentado que Fred e Jô não são jogadores para usar a camisa 9 amarelinha - apesar de serem os mais indicados para a posição, ou você convocaria Borges e Kardec? Será mesmo que em um país de 200 milhões de habitantes não existem jogadores melhores que Fred, Jô, Borges, Alecsandro e tantos outros que são os centroavantes dos grandes clubes brasileiros? Os talentos não surgem apenas por geração espontânea e sorte. Falta investimento. Falta profissionalismo.

As categorias de base do futebol brasileiro estão entregues aos empresários e ao futebol de resultado. Ao invés de priorizar a formação de talentos, na base (!) preferem garotos de força física e altura, que possam desequilibrar no corpo para ganhar campeonatos. A visão brasileira das categorias de base está tão deturpada que é priorizado o resultado, não a formação de talentos. Não é à toa que vira e mexe um talento tupiniquim faz sucesso na Europa e acaba jogando por outro país. Para não citar vários exemplos, escrevo apenas dois. Diego Costa, que seria o centroavante brasileiro na Copa - se existisse o mínimo de organização -, é melhor que todos os camisas 9 citados. Ele fez uma temporada brilhante pelo Atlético de Madrid e foi contratado pelo Chelsea por mais de R$ 100 milhões. Será que ele não tinha espaço em nenhum grande clube brasileiro e nas categorias de base por aqui? O outro exemplo é Deco, que bem, dispensa comentários.

A tão necessária evolução nas categorias de base e calendário melhoraria o nível do futebol tupiniquim e do Campeonato Brasileiro e faria com que não fosse necessária a saída de nossos talentos para a Europa com tanta frequência e rapidez.

Em outra comparação com a Alemanha, fica nítida a diferença. A Bundesliga distribui as cotas de televisão com uma diferença mínima entre o líder e o lanterna da competição, o calendário é bem feito, o campeonato é organizado e o trabalho nas categorias de base é exemplar. Talentos são garimpados, lapidados e dificilmente saem do país. Não é à toa que o nível técnico e tático do futebol e do Campeonato Alemão é excelente.

A revolução é necessária. Infelizmente, no entanto, não acredito que ela virá. A soberba é tão inacreditável, que os teimosos Felipão e Parreira afirmaram nesta quarta-feira que o planejamento foi bem feito, que a comissão técnica foi perfeita e que está tudo bem. Acreditam que o futebol brasileiro está no rumo certo (!) e que nada precisa mudar. Acreditam que o vexame foi fruto de seis minutos de apagão. É inacreditável. Uma vergonha alheia tremenda. E para piorar, a CBF cogita Luxemburgo como novo técnico. Um ex-treinador em atividade, que vem de trabalhos pífios e não tem espaço sequer nos clubes brasileiros! É muito amadorismo. Assim, fica difícil ter esperanças.

*com supervisão de Leandro Cabido